
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
BRAVO 2009! Festejemos o NOVO ANO

terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Máscara veneziana e a filosofia da vida.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Acabado de abastecer no hiper ao pé da porta, o pagamento automático foi efectuado com cartão Multibanco, a aproveitar o excedente do subsídio de Natal.
Embora a esposa controlasse, pelo papelucho, a mercadoria a precisar, os filhos sempre atiravam para o carrinho de compras mais uma e outra bugiganga. O marketing testado para sharings de clientes, fazia posicionar certos produtos em lugares estratégicos, nas diferentes prateleiras, que direccionavam os olhares para bónus convidativos. Na saída, a “dolorosa” era ainda inflacionada com a aquisição de mais uns extras, nas bancas de revistas cor de rosa, pilhas para rádios, chicletes e outras resmas de miudezas de ocasião, perfilando-se como pequenos demónios na última tentação ao Cristo-cliente.
Já em casa e aquando da conferência dos produtos-preço, atira um dos garotos:
- Pai, esqueceste-te da minha consola de jogos que me prometeste -choramingou.
- Mãe, os Tampax não eram estes – atacou a Guida, meio decepcionada.
- Pai, prometeste-me a bicicleta para os meus anos – relembrou ainda a do meio.
- Vamos ver se passas de ano!
Tentando desviar a conversa e fazer esquecer à filha mais cumprimento de promessas, não fora já as que estavam em lista de espera com S. Judas Tadeu e Sta. Bárbara, foi tempo de saborear o frango assado e as estaladiças do hiper.
- Ó mulher, estás-me a ver os nossos filhos, até parece que estamos a nadar em dinheiro. Estes putos sabem lá o que é a vida, já compram tudo feito.
(…)
Alex sentiu-se recuar no tempo.
Naquele Natal, o tempo invernoso fazia com que a campanha do ti Miguel ficasse mais uma vez em terra pois o mar bravio, e o saco do torreão do Salva Vidas, prenunciava borrasca.
O miúdo adivinhava, pela tristeza da mãe, que não haveria bacalhau nem as batatas, para a próxima Consoada. Dinheiro era coisa rara e o livro do fiado ia-se avolumando na mercearia do lado, em contas de provas dos nove mais que provadas e que faziam inveja a um qualquer Tribunal de Contas. Todavia, a esperança de dias melhores sempre acontecia e a ceia de Natal compusera-se. Não fora, em última instância, uma esgueirada na carreira do Linhares, ali à vizinha Póvoa, à casa do “Prego”, pelo empenhar do cordãozinho familiar, resgatado mais tarde, quando o S. Pedro atulhasse a catraia do mestre com a última réplica do milagre dos peixes.
Nessa noite, o garoto estava à espera de um presentinho muito especial do Menino Jesus. Colocara, por isso, as suas chanquitas pretas de tacholas a brilhar, junto à chaminé, infantilmente convencido que o carteiro do Pai Natal o recompensasse das suas boas acções de escoteiro, durante o ano anterior, e mais agora que a professora até lhe dera um Muito Bom com um ditado de se lhe tirar o chapéu (zero erros!). Foi magicando como é que o gorducho do Pai Natal podia descer por aquela chaminé tão estreita e fuligenta e, enquanto tentava alargá-la na sua fértil imaginação, nem se dera conta que já sonhava com os anjinhos.
Manhã bem cedo, correu para os presentes mas as chancas ainda lá estavam e parecendo-lhe vazias. Prendas, nem vê-las! Introduziu as mãozitas dentro delas e sempre apalpou qualquer coisa: umas nozes, uns pinhões e uns figos! Nem sabia se havia de estar triste ou contente. Ele que até esperava aquele carrinho dos bombeiros com rodinhas de madeira que viu no S. Bartolomeu, ou, pelo menos, aquelas patinhas de abrir as asas, da festa do Senhor Bom Jesus de Fão. Agora só aquilo? Será que fizera alguma asneira? Talvez!...
Choramingando, correu para quarto dos pais e aconchegou-se à mãe, meio em silêncio, meio interrogativo. Esta afagando-o, murmurou-lhe que “ talvez o Pai Natal não tivesse tido tempo para descarregar o resto das prendas, pois ainda tinha de ir a outros meninos”. Olhou para a mãe e percebera-lhe duas lágrimas a escorrer-lhe rosto abaixo…
Nesse dia de Natal, o menino tinha perdido a inocência.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
" Ao princípio criou Deus o céu e a terra ... (da Madeira)"- Génesis

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Convívio
domingo, 30 de novembro de 2008
Só bananas ...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Militares no "cinema"...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Ah fadista...

domingo, 16 de novembro de 2008
Da Índia para Angola

sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Suite-real em Quivuenga-city...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Surfing in my blog...

Aos trios é mais barato...

domingo, 2 de novembro de 2008
Dos Santos ao Dia dos finados - Recordando camaradas

sábado, 1 de novembro de 2008
Recordando...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
"Veteranos da Ônzima" suspenso sine die
domingo, 5 de outubro de 2008
"Conta-me como foi"

terça-feira, 30 de setembro de 2008
O "Rapto das Sabinas" - Praça de Florença

domingo, 28 de setembro de 2008
L'altare della Patria - ROMA

domingo, 21 de setembro de 2008
Actores do filme "Veteranos da Ônzima"
sábado, 20 de setembro de 2008
PARABÉNS: 100ª take do blog "onzima3411"!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008
"Um das Caldas" nas Ruínas de Pompeia! (?)

Uma "águia" na basílica de S.Pedro - Vaticano

terça-feira, 16 de setembro de 2008
Caricaturando épocas e estilos - S. Gimignano (Itália)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Armas pontifícias com dragão dourado - Museu do Vaticano

S. Miguel vencendo o "dragão" - Veneza
domingo, 14 de setembro de 2008
Um leão com bola em Florença!
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
E o "premiado" era ????
Adivinham de quem era este esqueleto?

domingo, 7 de setembro de 2008
"David" no Paiazza Nuova de Florença

sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Veteranos da Ônzima no obelisco de Trajano - Roma
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Dificuldades técnicas?
1. Clicar o "Youtube"(logotipo avermelhado) de "Barra de Video" e que se encontra por baixo de alguns takes já disponíveis ( a maioria sobre futebol da A.F.Braga);
2. Clicar no meu endereço de Youtube:koenig1705A5, que se encontre por cima da página;
3. Procurar no respectivo menu o take preferido (Cantabile), ou outros, e accioná-lo(s) para visioná-lo(s).
Um abraço,
Lino Rei
Cantor ukraniano - viela di Napoli
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Ossadas petrificadas de fugitivo(s) - Ruínas de Pompeia

segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Posição "Kamasutra 1"(?) - Lupanarium de Pompeia

domingo, 31 de agosto de 2008
Coliseu de Roma ..."esburacado" ?
sábado, 30 de agosto de 2008
"Desaparecidos em combate" premiado no Festival de Veneza!!!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Ir a Roma ...e não ver o papa!
sábado, 2 de agosto de 2008
"Desaparecidos em(do) combate" galardoado com 2 Óscares da Academia de Cinema de Hollywood!

Do produtor e realizador grego Reikaridis e baseado no livro do mesmo autor Também eu estive lá …, este filme arrecadou 2 Óscares da Academia de Cinema, para a melhor Realização e melhor Argumento.
Rodado inteiramente em terras africanas do Norte de Angola, região do café, a película, em cinemascope, retrata as aventuras de uma pequena coluna militar de abastecimento logístico entre as cidades turísticas de Quivuenga-resort e Songo-city, nos anos 71/73.
O argumento enaltece o espírito de grupo dos seus protagonistas que faziam aquele percurso entre as duas “estâncias turísticas” percorrendo os 43,700 Km de distância, para cada lado, em 01.43 horas !..., em “via rápida” e atravessando longas “pontes” e “viadutos”, no meio de uma floresta virgem luxuriante mas ao mesmo tempo muito perigosa devido à situação declarada de guerra.
A película mantém uma grande interrogação quanto ao seu desfecho pois finalizado já o seu “contrato de trabalho”de dois anos com a “empresa” do ME que a contratara, a coluna sofreria uma emboscada-carjaecking do In, precedida do rebentamento de uma mina “anti pessoal”, obrigando aqueles heróis a saltar das viaturas, não sendo mais vistos e considerados, como tal, de “desaparecidos” – sic o take da cena.
O mesmo realizador prepara já produção com a versão II daquele filme e promete desvendar o seu mistério pois, ao bom estilo de RadovanKaradzikiano, os verdadeiros protagonistas terão sido vistos em vários encontros de ex-camaradas, no Puto, mas “disfarçados” agora de reformados e com muitas brancas e “meloas” com pseudo doenças artrito-paludísticas provocadas pelo stress de guerra…".
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Férias ...

Crianças
Debatiam-se, no Conselho de Turma, os prós e contras para transitar o “Bravo” – nome de guerra por que era conhecido na escola o Barbosa. O seu cardápio escolar, mais longo que o último episódio de novela TV, em participações de todo o género, primava pela falta de educação e expulsões várias. A perspectiva de avaliação final de ano apontava para as já esperadas oito negas, não fora a complacência de um ou outro professor que destoou do grupo, pela atribuição da positiva mínima.
A alcunha viera-lhe do apelido que ele teimava em escrever Bravosa pois a sua configuração física destoava do normal da turma de dez e onze anos e onde, como em camisa de sete varas, o obrigaram a ter de fazer parte. Protagonizaria, por tal motivo, cabeça de cartaz, em decisões de litígio de recreio, já para não falar dentro da sala de aula que constituía o teste supremo, para qualquer professor que, a ser ultrapassado, poderia candidatar-se à santidade dos altares, tal a paciência exigida para com o sobredotado.
Nos seus 16 anos bem maduros, as capacidades cognitivas do “Bravo” mostraram-se pouco acima do limiar zero do Q.I.. O Conselho continuava com o dilema, temendo que mais um chumbo conduziria este “iluminado” ao abandono escolar. Um colega sugeriu que o transitassem pois enquanto permanecesse na escola não faria razia lá fora; razões extra, de pais separados e alcoólicos e a proximidade ao tabaco e à droga, vieram à baila e a tripla retenção acabaria por corromper a próxima turma onde recaísse. O Conselho concordou com a sua passagem, ao abrigo do tal artigo, avolumando cada vez mais a santa ignorância deste país.
Mas o caso não se ficou por aí, pois, logo mais, em nova reunião de um outro Conselho de Turma, um encarregado de educação não se convenceu de todo com os argumentos deste órgão da escola, idealizando para o seu educando um projecto de engenheiro, pois teimava que o filho haveria de sair doutor! A Ordem deliberara que o pequeno “Eiffel” tinha ainda muito tempo para rever os cálculos dos alicerces para as futuras pontes, pois as actuais caíram por terra, tal a ferrugem por tanta ignorância acumulada. E o assunto ficou definitivamente encerrado.
Alex reviu os seus tempos de escola primária onde, sem tantas reuniões, as coisas funcionavam no sentido de, no mínimo, saber-se ler e escrever e quem nãe era competente ficava de molho até o poder fazer. To be or not to be, passar ou não passar de ano era um ponto de honra a defender pois a “raposa” era um estigma duro de suportar; o insucesso andava associado, não à falta de inteligência da criança mas à fuga da escolaridade, por ter de ajudar-se a família ao provento do dia a dia.
Recordou então os “Passarinhos”, os “Gatinhos” e os “Morrosóis” que coitados, mal se resguardavam daqueles frios invernosos, em farrapos e andrajos de ocasião que fingiam proteger corpos magricelas de geração de crianças grandes. Por isso, o pó das carteiras ia-se avolumando com as suas ausências, requisitados ao mar, em catraias de cascas de nozes que não era suposto arribarem ao cais cada manhã. Outras vezes, ainda ensonados da faina marítima, anestesiada a fome com o naco de pão bolorento e a tigela de caldo de couve e massa esbranquiçada, tentavam afinar à tabuada, enquanto endireitavam a caligrafia pelas linhas do caderno ou (des) convertiam metros a centímetros, sob a ameaça da palmatória do professor fazer os respectivos acertos nas suas já calejadas mãos.
Naquele tempo, a cana comprida do mestre sibilava-lhes ao redor das cabeças fazendo-os acordar para as regras de comportamento, para os cursos dos rios e linhas-férreas a decorar. Ai que se queixassem em casa pois ainda tinham dose a dobrar! A escola ensinara-lhe certos valores, como a amizade, a solidariedade e o respeito quase sacrossanto pelos pais e professores.
Vieram-lhe à memória aquelas Quartas Feiras em que a sala de aula virava tribunal e em que a “Santa Catarina” transformava as suas mãos em tachos de estrelar ovos e nem cabelo de cavalo com azeite ajudava a tornear a dor, enquanto grossas lágrimas escorriam pelos "crimes" cometidos: quatro erros no ditado, por confusão dos ésses dos botões cosidos com os zês das fanecas cozidas; dois problemas errados, na aritmética, por se ter roubado mais ao quilo do algodão que ao litro do vinho tinto. Se era na História, cometera-se o sacrilégio de alterar a cartilha, confundindo-se o rei Gordo, D. Afonso II, a plantar o pinhal de Leiria enquanto D. Dinis, O Lavrador, distribuía mais umas sacholadas valentes no costado dos mouros, ganhando para Portugal a quinquagésima batalha desde O Conquistador. A coisa ficava ainda mais feia na Geografia do reino, quando alguém desviava o Cávado do seu leito para o desaguar ali para os lados do Forte de Viana, com comentários críticos do professor quase a merecerem prisão no dito cujo. E que dizer então das linhas férreas onde a ignorância da petizada fazia até descarrilar comboios pelo desvio das agulhas ou, quando aquele mais sabido direccionava a Linha do Norte para um apeadeiro desterrado na fronteira de Espanha, pondo em perigo até a unidade nacional!?
No tribunal das Quartas Feiras, uns tantos sujeitavam-se à dose suplementar da palmatória, por riscos nas carteiras, salpicos de tinta permanente no soalho, estilhaços de vidros da sala com a bola de farrapos ou bexiga de boi de matadouro, confrontos físicos com colegas, surripianços de ardósias dos vizinhos de carteira, entre outros "crimes"!
Nessas ocasiões, a professora também lhe ensinara, no Canto Coral, o Hino Nacional, o Não vás ao mar Tonho, as Pombinhas da Catrina e tantas outras canções que eram disputadas em altura tímbrica com os mais velhos já conhecedores de todo o reportório coral, por repetências acumuladas. Ninguém estranharia sequer as mudanças de vozes de alguns “Pavarotis”, do garnizé ao galináceo mais apurado, camuflados atrás do coro, que de boca aberta fingiam-se aos barítonos e baixos. Havia ainda quem as fizesse pela calada, em incursões aos bolsos dos calções, disputando uma e outra perisca, apanhada no passeio e a ser fumada na retrete da escola, no intervalo seguinte. Se a dita cuja não chegava para todos, dividia-se irmãmente o prazer e assim enquanto os mais velhos fumavam os “charros”, os demais iam treinando com cigarros de barba de milho!
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Fachion/72. Os 7 magníficos ...

terça-feira, 29 de julho de 2008
Festival internacional de Danças de salão...

segunda-feira, 28 de julho de 2008
Cena do filme "Os 4 mosquiteiros"...

domingo, 27 de julho de 2008
Disputando a(s) dama(s)...

sábado, 26 de julho de 2008
Aniversário da ÔNZIMA

sexta-feira, 25 de julho de 2008
Gaivotas do rio
5. A inundação
No torreão do Salva-Vidas, o saco preto obedecia a uma sinalética para os pescadores. Se este se apresentava de pernas para o ar, significava que o vento soprava de sudoeste. Se aparecia uma bola preta, este soprava de Oeste. Na ocasião, era prenunciadora de mar alto e mau tempo, com a barra fechada à navegação.
Nesse dia invernoso de Fevereiro, a chuva fustigou por demais a orla marítima. Madrugada dentro, coriscos e trovões abanavam as ténues casitas da Ribeira. Durante toda aquela santa noite, Alex não conseguiu pregar olho e enrolou-se, cheio de medo, por entre os míseros cobertores que cobriam ainda a nudez dos pais.
- Minha Nossa Sra. da Bonança – ouviu rezar a mãe – fazei-de abrandar a tempestade!...
O pai, acordado e sobressaltado pelo último relâmpago da borrasca, acendeu o velho candeeiro a petróleo, na cabeceira da cama, logo espalhando sombras fantasmagóricas pelo teto fora e exalando um cheiro familiar, anestesiando, de imediato, meia dúzia de pulgas, nos já rasgados lençóis. Foi-se dar uma olhadela pela janela do mirante e torceu o nariz, pois a tempestade estava brava, fustigando as vidraças, aqui e ali já meias alanhadas e tapadas a betume. Duas pingas teimosas tinham já furado o soco de madeira e escorriam soalho fora.
- Vou lá abaixo buscar um alguidar para aparar esta água – rosnou para a mulher.
- Vai, mas anda depressa que eu até tenho medo. Que farão esses desgraçados dos pescadores por esse mar adentro!? Ouve lá, a campanha do tio Tuta não saiu para as rascas?
- Não sei mulher, com este mar de Cristo quem é que se atreve a sair da barra? Vou descer para remediar isto. A propósito, não tens umas rodilhas para enxogar a água?
- Estão ao pé do cântaro, ao lado da máquina de petróleo.
Para não ficar com a casa às escuras, por medo do rapaz, o pai tentou acender o toco de vela de estearina da Sagrada Família, que, com a humidade dos fósforos, teimava em não dar-se à luz, sendo preciso recurso ao isqueiro de pederneira. Desceu as escadas com o candeeiro, em ceroulas de flanela, para o ofício em mãos. Quando chegou ao pé da porta, ficou atónito com o que vira:
- Mulher – berrou – anda cá abaixo depressa que a casa está toda inundada! Traz-me aí as botas de água que isto mais parece um rio!...
A cozinha tinha já uns bons 20 centímetros água acima, pela maré viva do rio, a que se juntara também o lodaçal da chuva. Duas ratazanas assustadas tentavam nadar para porto seguro pois os buracos apodrecidos do rodapé já não inspiravam grande confiança. A velha gata Tirone saltara para a mesa de jantar, e de pelo eriçado, temendo talvez pela sua sétima e última vida, arremessara, borda fora, os garfos tridentes de ferro, acabadinhos de brilhar e esfregados a cinza de véspera, e as colheres de alumínio, do presigo do jantar.
Um cheiro a maresia invadiu o corredor enquanto o penico do quarto boiava de um lado para o outro como que imitando o Titanic em naufrágio. Pelas frinchas da porta da frente, a corrente ameaçava invadir cada vez mais o resto da casa, não foram umas rodilhas e farrapo de cuecas velhas fazerem tampão, minimizando os estragos. A mãe, em camisa de noite, acorrera e perante o cenário, faltou-lhe a respiração e quase desmaiara.
Rua fora, ouviam-se pedidos lancinantes de socorro, enquanto rafeiros assustados pareciam periscópios, tentando emergir à tona da maré. Mais além, porcos, gatos, galinhas e coelhos de criação boiavam à deriva, já mortos.
Para os lados da capela de S. João, os juncos não resistiam à fúria das águas e vergastavam de tal forma as costas ao santo que o coitado bem que lhe apeteceu voltar de novo ao deserto, a comer gafanhotos e mel silvestre!
Entre portas, recitavam-se ladainhas a todos os santos e mais alguns; esgotadas estas, rezavam-se rosários completos à Senhora da Saúde e dos Navegantes, cheios de convicção e fé religiosa. Também o Senhor dos Aflitos não escapou a tanta invocação e poderia estar certo que não lhe haveriam de faltar mais velas na sua capelita, ali para os Bombeiros velhos, por tanta promessa feita nessa noite. Até os Romões invocaram a Bíblia, no Noé da família, para fazer descer as águas!
Qual quê?
Nas 7 casas dos pobres de S. Vicente de Paula, a situação era desoladora:
- Valha-nos o Senhor dos Aflitos, lá boiaram os tabuleiros das linhas da faneca e o espinhel do congro do meu hóme – gritava a Maranhona.
Ao lado, os Quintinos assistiam ao último milagre dos seus Santos Antónios de granito pois estes ainda resistiam ao dilúvio e, mesmo com água pelo pescoço, permaneciam de pé e inquebrantáveis na sua fé. Valera-lhes, talvez, terem pregado aos peixinhos!
Mais aflita, chorava a Mariquinhas:
- Ai, minha mãezinha, quem nos acode que a maré está-me a levar tudo de casa. Lá se foi o meu porquinho!
- Meu rico Sãojoanzinho, valei-nos nesta aflição – implorava a do Airinhos – afogaram-se as minhas ricas galinhinhas!...
Uns vaticinavam até que se estava no fim do mundo. Mais em surdina, alguém invocava as bruxas ainda vivas – as mortas quiseram lá saber! - E afiançava-se até que por ali passara procissão de defuntos!
Vade rectro!
A tempestade não parava.
Horas depois, lá chegaram os Bombeiros que pouco mais puderam fazer que acudir aos vizinhos mais necessitados e arredar o lodo e o lixo das ombreiras das portas. Tentaram, em vão, desobstruir os aquedutos e caleiros entupidos mas a corrente dificultava-lhes a missão. A escuridão era total por falta da lâmpada fundida do único poste que, de tão inclinado, ameaçava também abater-se. Os faróis do carro de socorro varriam, noite fora, outros fantasmas, nos xailes pretos do mulherio da vizinhança que passou toda a santa noite desperta, tal o medo por algum desastre maior.
- Sta. Bárbara (…) R/ Ora pro nobis – prosseguia ainda a ladainha numa das casas, frente aos quadros dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
No dia seguinte, foi o contabilizar dos prejuízos, avolumando ainda mais a miséria desta gente.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Concerto para cravo e solista ...

quarta-feira, 23 de julho de 2008
Euros e euros...
A guerra do Iraque já fez mais de um milhar de mortos entre os soldados norte-americanos e da coligação, desde que foi derrubado o então poder instituído do governo de Sadan Hussein, e, proclamada a tomada de posse por parte da coligação (…) a guerrilha, continua activa, após a passagem do poder para o novo governo instituído. A paz parece ser cada vez mais difícil de instalar-se, recorrendo agora a guerrilha a outras formas de destabilização, com raptos à mistura e a exigir dos países envolvidos a retirada das suas tropas (…), ouviu-se na SIC.
Atento ao desenrolar das últimas, o amigo Heitor aproveitou para deitar conversa:
- Eh, pá, já viste isto? Está pior que no nosso tempo. Estes cabrões mereciam era que lhes fizessem o mesmo “Olho por olho, dente por dente”.
- Se isto fosse por cá não sei o que seria – adiantou o Rogério.
- Dizem que nem temos submarinos! E quanto a helicópteros eles são tantos que nem apagam os “fogos” do Parlamento, que fará a torreira que vai por esse Portugal fora - interveio Alex.
- É mesmo, Portugal está arder de lés a lés e os políticos não há meio de darem a cara – insistiu Heitor – está tudo de vacanças.
- Alguém toma um cafezinho? - Perguntou a dona da casa.
- Boa ideia – anuiu o marido –, já agora, trás aí uns whiskys para acompanhar.
- Eh, malta, o raio desta guerra faz-me lembrar as nossas de putos, lá na Ribeira.
- Conta aí - espicaçou o Rogério.
(…)
A atmosfera amistosa da visita dos conterrâneos provocou o desfiar de recordações que se prolongariam pela noite dentro. Naquela viagem ao passado, não tão longínquo quanto isso, fez-se a ponte com os dias ora vivenciados e cada vez mais cheios de incertezas. A propósito dos bancos da escola, teceram-se alguns considerandos.
As batalhas vitoriosas dos nossos reis faziam da nossa História o povo mais intrépido de que há memória. Eram decoradas com fé quase maometana e em precisão de datas e nomes, sendo assunto obrigatório nos exames da quarta classe, perante um tribunal de professores que nos passava ou enfiava a raposa se nos desviássemos daquelas verdades absolutas como paradigmas a imitar. Ainda que tinham alguma complacência com os problemas da Matemática, agora com a nossa História não brincavam em serviço!
Tais feitos mirabolantes, contados pelos cronistas da época e inflacionados pelos copistas de el-rei, tornaram-se como fixações doentias, narrando, pelas quatro dinastias dentro, batalhas hercúleas tão arrojadas como Aljubarrotas e Atoleiros que ainda hoje permanecem como vestígios e recordações onde um qualquer arqueólogo pode verificar, através da sedimentação dos despojos, a que correspondeu tão avançada táctica militar!
A cartilha narrava apenas dois ou três desastres nacionais, entre os quais, Alfarrobeira – talvez pelos nossos guerreiros andarem de disenteria por tanta alfarroba enfardada! – E afiançava mesmo que o desastre de Alcácer-Quibir fora mais devido ao nevoeiro da ocasião que à valentia da mourisca, que logrou dar cabo da estratégia da quadratura do quadrado, na formação dos lanceiros d’O Desejado, quando as cavalgaduras inimigas lhes terão caído em cima. Valeu a D. Sebastião se ter “evaporado” a tempo e, reza a crónica, que a sua alma veio pairar até Esposende, em estátua petrificada, erguida pelos seus devotos crentes, e quase elevado à honra dos altares, tal a sua semelhança com o seu homónimo, mártir romano, ali na matriz:
- Ai, meu rico S. Sebastiãozinho – rezava a tia Micas, virada para as nuvens de bronze que aureolam o jovem rei – fazei-de-me que o meu rico Tóne volte a salvo do mar de Cristo – enquanto desfiava um rosário de Ave Marias, Padre Nossos e Améns…
Era a cobrança de uma dívida mais que merecida pois El-rei, em 1572, dera-lhe Carta de Provisão, libertando o lugarejo de 370 moradores da tutela de Barcelos.
Tais façanhas viriam a ser recreadas pela canalha da vila, virando lutas e jogos de rua onde o inimigo-amourado era rebaptizado: os do Norte, os do Sul, do Jardim, do Grémio, os da Lagoa, os da Central, cada um destes reclamando para si o estatuto de exército português.
- Eh, malta, lembrais-vos das nossas espadas, feitas de paus, a imitar os lanceiros gregos? – Recordou o Rogério, que era do Norte.
- Isso não era nada. A nossa “artilharia pesada”, armada de calhaus e godos do rio, à primeira investida, decepava logo as vossas couraças! – Gozou de novo o Rogério.
- E a nossa “infantaria ligeira”, de lanças aguçadas de vassoura velha, nas “motas” com rodas de madeira, feitas pelos presos da cadeia, a cinco tostões!?
- Olha aí! – entrou na conversa Alex – eu cheguei a ir armado de Robin Wood, arco e flechas, restos de varetas de guarda-chuvas. Para azar meu, despachei até para o hospital o “Trinca espinhas”, e o desgraçado teve de levar injecção contra o tétano, que eu cismava e afiançava que era contra o teto! …
- E aquele estratega militar, lá do sul, que devia imitar tudo dos filmes dos romanos!? Levava a coisa tão a peito que nas primeiras linhas da refrega os seus guerreiros vinham todos armados de couraças circulares feitas das tampas de bidões … - ria-se o Miguel.
- Aquilo é que eram guerras! – Concordou o Zé. Numa destas fizemos alguns prisioneiros mas a brincadeira ficou-nos cara pois os familiares deram-nos cá uma sova do caraças!
(…)
- Ouvi aqui – interrompeu o Gigas, lendo a Bola do dia – aqueles espanhóis dum canastro deram outra vez “baile” ao Porto, no hóquei. Não há meio de quebrar o enguiço.
- A propósito – adiantou o Heitor – e os nossos sticks de tronco de couves que faziam mais “galos” nas canetas do adversário que golos nas balizas...
- … e estas eram a calhaus e encurtadas, à surrapa, sempre que a bola se aproximava …
- E quando a malta ia jogar futebol contra vós? – Gozou de novo o Miguel.
- Espera lá, um dos nossos craques foi até jogar para o Esposende S.C. , mas logo no primeiro treino acabou por jogar descalço pois a patanha, calibre 48, era tão pequena e calejada que não houve chuteira que lhe servisse!... No treino seguinte, foi preciso sapateiro-ferrador para lhe tirar as medidas!
- O melhor era a porrada pelo golo, sempre avaliado a golpe de vista. Era boxe do melhor. Às vezes, lá aparecia a GNR para amenizar a contenda. Muitos olhos viraram à “Belenenses” quando os seus olheiros até eram adeptos do Benfica e Sporting!...
(…)
- Eh, malta, já é tarde e acho que me vou – bocejava já o Heitor, depois de bem regado do whisky – combinamos aquilo amanhã, O.K?
- Nós também vamos – despediram-se os restantes comparsas – Ciao.
- O. K. Obrigado pela visita e aparecei mais vezes pois recordar é viver.