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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Bom 2013

Caros amigos e ex-camaradas,
Muita saúde e pré disposição anímica para encarar o próximo ano com o melhor dos otimismos, apesar da conjuntura difícil pela qual todos  estamos a atravessar.
Sabemos que é fácil falar de filosofias otimistas quando o nosso já parece estar assegurado, mas por outro lado, bater sempre na mesma tecla da crise ainda nos afunda mais. Como tal, façamos todos um esforço para tentar viver um dia de cada vez pois a esperança é sempre a última a morrer.
Nas minhas palavras vai uma sentida homenagem aos que durante este ano "deixaram de combater" e foram alguns com quem convivemos no terreno do dia a dia da nossa campanha em Angola 71/73.
Um abraço muito apertado para todos vós que já ultrapassaste um milhar nas vossas pesquisas a este blogue e que embora esmorecido nos últimos tempos lá vai ressuscitando para se lhe dar a continuidade possível conforme a maior ou menor disposição do momento.
Bom Ano 2013.
Vosso camarada,
Lino Rei (ex-alferes da C.C. 3411)
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

As chancas de Natal


As chancas de Natal

           

            Acabado de abastecer no hiper ao pé da porta, o pagamento automático foi efectuado com cartão Multibanco, a aproveitar o excedente do subsídio de Natal.

         Embora a esposa controlasse, pelo papelucho, a mercadoria a precisar, os filhos sempre atiravam para o carrinho de compras mais uma e outra bugiganga. O marketing testado para sharings de clientes, fazia posicionar certos produtos em lugares estratégicos, nas diferentes prateleiras, que direccionavam os olhares para bónus convidativos. Na saída, a “dolorosa” era ainda inflacionada com a aquisição de mais uns extras, nas bancas de revistas cor-de-rosa, pilhas para rádios, chicletes e outras resmas de miudezas de ocasião, perfilando-se como pequenos demónios na última tentação ao Cristo-cliente.

         Já em casa e aquando da conferência dos produtos-preço, atira um dos garotos:

            - Pai, esqueceste-te da minha consola de jogos que me prometeste -choramingou.    

         - Mãe, os Tampax não eram estes – atacou a Guida, meio decepcionada.

- Pai, prometeste-me a bicicleta para os meus anos – relembrou ainda a do meio.

         - Vamos ver se passas de ano!

Tentando desviar a conversa e fazer esquecer à filha mais cumprimento de promessas, não fora já as que estavam em lista de espera com S. Judas Tadeu e Sta. Bárbara, foi tempo de saborear o frango assado e as batatas estaladiças do hiper.

- Ó mulher, estás-me a ver os nossos filhos, até parece que estamos a nadar em dinheiro. Estes putos sabem lá o que é a vida, já compram tudo feito.

(…)

         Alex sentiu-se recuar no tempo.

         Naquele Natal, o tempo invernoso fazia com que a campanha do tio Miguel ficasse mais uma vez em terra pois o mar bravio, e o saco do torreão do Salva -Vidas, prenunciava borrasca.

O miúdo adivinhava, pela tristeza da mãe, que não haveria bacalhau nem as batatas, para a próxima Consoada. Dinheiro era coisa rara e o livro do fiado ia-se avolumando na mercearia do lado, em contas de provas dos nove mais que provadas e que faziam inveja a um qualquer Tribunal de Contas. Todavia, a esperança de dias melhores sempre acontecia e a ceia de Natal compusera-se, não fora, em última instância, uma visita meio envergonhada, no “Linhares”, ali à vizinha Póvoa, à casa do “Prego”, pelo empenhar do cordãozinho familiar, resgatado mais tarde, quando o S. Pedro atulhasse a catraia do mestre com a última réplica do milagre dos peixes.

Nessa noite, o garoto estava à espera de um presentinho muito especial do Menino Jesus. Colocara, por isso, as suas chanquitas pretas de tacholas a brilhar, junto à chaminé, infantilmente convencido que o “carteiro” do Pai Natal o recompensasse das suas boas acções de escoteiro, durante o ano anterior, e mais agora que a professora até lhe dera um Muito Bom com um ditado de se lhe tirar o chapéu, por zero erros!

 No meio de tanta azáfama, cansado das brincadeiras com os amigos e, já lá para a tardinha, ainda com uma ida à catequese, com uma reprimenda do senhor arcipreste por não ter dado conta do recado na recitação do Credo, meio sonolento, já na cama, a mãe aconchegara-lhe os parcos cobertores e ia magicando como é que o gorducho do Pai Natal podia descer por aquela chaminé tão estreita e fuligenta, tentando alargá-la na sua fértil imaginação, não se dando conta que já sonhava com os anjinhos.

Manhã bem cedo, voou para a cozinha, directo à chaminé.  

Que decepção!  As chancas ainda lá estavam todas arrumadinhas e até meio arrebitadas para cima mas parecendo-lhe vazias. Prendas, nem vê-las! Introduziu as mãozitas dentro delas e sempre apalpou qualquer coisa: umas nozes, uns pinhões e uns figos! Nem sabia se havia de estar triste ou contente. Ele que até esperava aquele carrinho dos bombeiros com rodinhas de madeira que viu no S. Bartolomeu, ou, pelo menos, aquelas patinhas de abrir as asas, da festa do Senhor Bom Jesus.

Só aquilo? Será que fizera alguma asneira? Talvez!...- Falou-se para dentro.

Tristonho, correu para o quarto dos pais e aconchegou-se à mãe, meio em silêncio, meio interrogativo. Esta afagando-o, percebendo-lhe a desilusão, murmurou-lhe que “ talvez o Pai Natal não tivesse tido tempo para descarregar o resto das prendas, pois ainda tinha de ir a outros meninos…”.

No olhar da mãe, viu duas lágrimas que lhes escorriam rosto abaixo. Recebeu um grande beijo na testa.

Percebeu então, nessa manhã, e na sua inocência de criança que tinha começado a crescer para a dura realidade.

Lá fora, logo esqueceu. Parece que o Pai Natal sempre chegara a tempo pois logo partilhou com os seus amigos dos jogos do rapa, do peão,  dos pinhões e até das nozes e de uma ou outra rabanada sobrada da noite anterior.

Estava de novo feliz.

 

Lino Rei

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Isto é que vai uma crise...

Olá, "pais natal", andais disfarçados para os vossos netos? Pois então ponde, outra vez, esses camuflados que até vos hão-de assentar muito mais melhor do que aqueles "à sporting" que vos impingiram na altura e que ora também estão de rastos - que o diga o nosso "general de quatro estrelas" Laranjeira, ali dos lados de Alvalade e Falência(s) Lda.
Há uns tempos a esta parte, que não vos (a)desabafo das minhas agruras do dia-a-dia, mas tem sido (des)propositado, pois aumentaria ainda mais a vossa crise biliática perante os quatro mil milhões que ainda deveis à Tropa, vulgoTróika, e de que nem sabeis onde é que esbanjastes tanta massa ... nem em que "tias" investisteis.
Mas voltando à(s) grandes "massas" de fortunas nunca vistas que amealhastes lá nos Prés do Ultramar, tendo cuidado e ponde o vosso melhor uniforme militar e aparainde a barba, pois pelos meus lados de Braga, certos gerentes de bancos, de estaleca espanhola, vulgo Santander Totta, não vos hão-de (a)reconhecer de tão disfarçados que andaindes, nem aceitarão dentro das suyas instalaciones pois mais parecereis  de arraia miúda, do tipo de gentes de leste, romena ou ukraniana, quando fordes trocar ou levantar o prémio do euro milhões, sujeitande-vos a receber os "trocados" no olho da rua !... E onde é que já se viu esta, não fosse eu conhecer-vos que sendes gente fina e honrada !?
Pois é assim, minha "genchi", poupainde mais uns copitos nas cervejas até ao fim do ano pois em 2013 hão-de sugar-vos até ao tutano e inda tereis de pagar para receber. Com tanto IVA a esmifrar-vos, para trás e para a diante, com mais IMI, taxas de passagem de postes de eletricidade pelo vosso bairro da lata, mais impostos de águas estagnadas que vós não mandastes parar, lá tereis que imigrar para mais umas não sei quantas comissões. Podeis insistir em Angola, Moçambique, Guiné ... ou a sua irmã Equatorial, ou em alternativa, alistar-vos para o Afeganistão, Casaqueistão ou Urbszequistão... e não vos há-de sobrar sequer mais um tostão, pois esses filhas da Papá Uniforme Tango Alfa hão-de esperar-vos no aeroporto para vos cobrar ainda mais o imposto de sapato, de ar respirado e  sol apanhado - apanhados já vós estais, foxtrot! - e até do papel higiénico do ataque de asma, logo seguido de uma desinteria que vos acometeu em pleno vôo ... só pelo susto do que ainda estará para vir !!!
Ora, pois então, ide por mim, alistai-vos já e em força e acantai o "Angola, é nossa ..."
Tende Bom Natal. Quanto ao Ano Novo, é melhor prepararde-vos de as armas e bagagens e arrivar-vos a tais paraísos tropicais onde já podeis dançar o Samba e o Bossa Nova...
E que Deus vos abençoe.
Vosso conselheiro para os assuntos militares e afins,
Marechal de seis estrelas, aposentado e na reserva, ex-deputado da nação e com direito a seis reformas por acumulação de outras tantas comichões fazidas de tanto coçar na cabeça,
Ivanovich Vaissetefuderov


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Força, camarada: Abante(smas) !

Olá, cambada, já sendes Generais ? Ainda não ? Mas que é isso, mandaram-vos para a reforma antes de  Marecha(is)rdes para o próximo 25 de Abril - isto está qua(i)se, pessoal.
Pois então, só para os tripeiros cá do Norte, lá vão umas "tripazitas-filme" à moda do Porto. Numa visitazita  com alguns colegas ex-prof's cá de Braga, fomos até à IMBICTA e aos tonéis de Gaia onde probámos do branco ... e do tinto e rabelámo-nosjá  meios tontos até à nossa Bracara.
Apreciái-de, que eu não duro sempre.
Inté,
Vosso General-marechal,
Cabo-raso nº 165240/69

(O)PORTO


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Olá, ex-camaradas da 3411.
Alguém sofre ainda da crisiática ? Pois é, parece que esta peste nos tocou de perto e não há forma de encontrarem o anti-biótico!...
Pois e desde o último 25 de Abril - refiro-me à última crónica - que por razões várias tenho andado arredado, "muita água passou sob a ponte" e gostaria de concertar alguns bocados, se bem que os recentes acontecimentos que vieram afetar a 3411 possam ser mais de luto - o desaparecimento do Rato, do José Coelho e do Marquês - que de alegria. Mas a vida continua e há que lidar com a morte como uma inevitabilidade que a todos advirá. Como tal, preparemo-la ainda em vida.
Filosofias existenciais à parte, o virtual tem sido ocasião para continuarmos a conversar com vários camaradas e, agora como nunca, estamos cada vez mais perto, sendo sempre bom sintonizarmos o presente, passe embora o emprego (ou desemprego ) ou a aposentação de cada um de nós.
Num destes dias botei faladura virtual, durante quase uma hora, através do chat do Facebook com o nosso amigo Laranjeira e foi compensador ajudar a "colocar as pedras na calçada", que é como quem diz, pormos a conversa em dia. Outros camaradas vão-se associando através destes meios audio visuais, participando, aqui e acolá, com fotos e dicas de antanho que nos fazem sempre lembrar que ainda estamos vivos e  por cima da ponte e que a amizade tem perdurado para além da nossa vivência, há anos a esta parte.
E por hoje fico-me, reiterando esforços e desejos de que todos quantos puderem - seja até através dos filhos que lidam melhor com estas coisas modernas dos FB e dos blogues - continuem a "fazer pontes" para que a 3411 continue viva e a recomendar-se.
Um abraço apertado do Rei (Lino) pois ... "vemo-nos por aí".

Lino Rei
 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril, onde páras ?

Eu (nós) sou do antes e do depois do 25 de Abril.
Nós, os ex-combatentes do Ultramar, "forjamos" a Revolução dos Cravos, após 13 anos de luta inglória contra os povos autótones que, simplesmente, queriam asas para poderem voar. A nós fizeram-nos "caçadores" à força e limitámo-nos a tentar caçar e quantas vezes de "caça" nada vimos; aqui e ali tropeçamos nas nossas espingardas que se dispararam contra nós outros provocando perdas estúpidas não mais saradas.
Quando a "caça" acabou, outros caçadores que nunca lá estiveram para dar a cara à luta, apareceram com os troféus, armadas de varas e carapaus e tornaram-se muitos deles heróis de liberdades pela quais pouco fizeram; uns, fugidios ao sistema, outros oportunistas de ocasião, e outros tantos a reboque dos acontecimentos instalaram-se no poder e fizeram fitas e cinemas que correram mundo com cravos vermelhos nas espingardas que nunca souberam manejar. Muitos destes tornaram-se heróis ... de banda desenhada, convenhamos.
Nós fomos pura e simplesmente esquecidos, proscritos até pelo novo sistema, apesar de não termos virado a cara à luta quando a pátria precisou do nosso esforço, apesar de políticas para as quais nada contribuímos. Estivemos lá, não fomos cobardes, dixamos lá muitas das nossas vidas. Outros tantos chegaram estropiados e aqueles outros ainda hoje sofrem de traumatismos traumáticos e psicológicos que não mais sararam.
- Afinal, o que é que o 25 de Abril fez por nós? Liberdade ? Reconhecimento público ?
Responderei: puro esquecimento, varridos para debaixo do tapete da indiferença por politiquecos de meia tigela que foram degradando um país até ao seu descalabro.
São estes os novos heróis da nossa democracia, do 25 de Abril !

Ex- militar em Angola.

terça-feira, 20 de março de 2012

Um golpe de mão

Outros golpes de mão

Por vezes, havia que quebrar a nostalgia das noites distantes do Puto com algumas saídas furtivas fora do perímetro do aquartelamento.
O mecânico mor, fur. Laranjeira, tinha nos seus compinchas - o Velês, alentejano de gema, o leixonense Óscar e o Gouveia, portista dos sete costados - uma autêntica testa de ferro para certos "ataques surpresa" que, daquela vez, foi à sanzala mais próxima.
Naquela noite, no velho jeep wiles e tendo como pendura o Gouveia e no banco de trás, o Velês e o Óscar, o sentinela de serviço também acabaria por fazer olhos e ouvidos de mercador e o "bando" voou até ao objetivo.
... Desligando-se as luzes do jeep, avançou-se na escuridão até ao redil, pertença de um proprietário de um talho local. De imediato, o Velez, saltou do jeep e embrenhou-se no meio das cabras e ovelhas e logo despachou um dos troféus até ao carro. Desta feita e em fórmula 1 até ao quartel, estava já preparado o cozinheiro da Companhia, para repasto posterior dos compinchas.
No dia seguinte, era ouvir e bociferar o talhante "de que os turras voltaram a limpar-lhe mais uma cabra, esses filhas da p...", enquanto aquela "matilha" ia rindo a bandeiras despregadas por mais uma partida.

In "Também eu estive lá..."

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O ritual da recruta / in "Também eu estive lá..."

Local: Quartel do convento de Mafra - Julho/70/ COM (Centro de Oficias Milicianos)

Sair ou entrar no "principado" de Mafra, exigia "passaporte" que dependia, tantas vezes, dos humores do oficial de serviço.
Na formatura de saída, longas filas de cadetes perfilavam-se ao som de guinchos baritonais dos cabos milicianos e qual desfile de misses, o candidato a uma simples "deserção" de fim de semana apresentava-se todo engomado da cabeça aos pés.
O Zé cadete excedia-se em parafusos de imaginação de asseio, acarinhando a trunfa, aparada à escovinha ou máquina zero, de forma a fazer sobresair a boina ou o boné regimentais, barba escanhoada à menino de coro, botões mais lustrosos que raios de sol e as estrelas de instruendo a espelhar. Não se ficava por aí a inspeção pois se parecia que passava logo à primeira estava bem enganado. O teste final descia agora na vertical para os sapatos ou as botas e  havia que pô-los como brinquinhos. Às vezes, por falta de tempo, disfarçava com uma mão de verniz ou umas escovadelas histéricas com o último grito em graxa made in China. Com tudo au point e se o oficial de dia estivesse para aí virado e sem uma qualquer má disposição momentânea, ficava-se aprovado.
Corria então para a porta de armas, qual tresloucado e voltava ao condado da sua terra natal. Ainda no combóio em andamento e em rapidinha ao W.C. desfazia-se daquela farda-azeitona e engarrafada à pressão e passava a aperaltar-se à civil para fugir a uma última  inspeção da pegajenta Polícia Militar com faro predileto para embirrar com magalas e cadetes nas estações de S. Bento ou Campanhã. De soslaio, ia deitando uns olhinhos às meninas do lado, muitas delas estudantes e que iam entrando ao longo da viagem.
Na viagem de regresso, ainda sonolento e mal dormido pelas charretes ou os "Expressos do Oriente" da sua aldeia, mal tinha tempo de endireitar a gravata para reentrar no quartel.
O normal da semana  ia sendo mais do mesmo, até que o cabedal ficasse todo esfolado com umas idas à lagoa, no galho, no pórtico, na ordem unida, nos crosses, na carreira de tiro e por aí fora. Como engorda, a ração de combate, quando em progressão para alguma semana de campo, ali a Torres Vedras ou aos banhos de mar da Ericeira. Quanto às refeições no "hotel"  havia menus variados à base de alguma carne condimentada a soda para inchar o canastro.
Ah! E estar afinadinho quando em pelotão tentava imitar o Pavarotti:

O cadete é o melhor da tropa
Quando lá não está mais ninguém
As meninas até ficam loucas
Co'as estrelas que a sua farda tem
(...)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Também eu estive lá..." - Lino Rei

Faleceu Castro Gil, pseudónimo de Amadeu Torres, ilustre Doutor e Professor catedrático da UCP e UM, e Cónego do cabido da Sé de Braga, mas natural de Vila de Punhe, Viana do Castelo.
Foi detentor de um curriculum académico invejável no domínio das Línguas e da Filologia Clássica e de uma vasta bibliografia.
Tive o especial privilégio de lidar com ele ainda como aluno e que mais tarde teve a gentileza de me prefaciar o meu livro "Também eu estive lá...".
Foi um bom homem e um homem bom.
Paz à sua alma.
O seu funeral realiza-se amanhã, sábado, 11/02/2012, 10.00 h, na Sé de Braga, com concelebração eucarística, presidida pelo Senhor Arcebispo Primaz. Será depois tresladado para a sua terra natal.
Prefácio ao livro: Também eu estive lá..."
" A MODOS DE PREFÁCIO
São os diários e as memórias preciosos auxiliares da história. Não obstante a sua confinação ao indivíduo ou ao grupo, a estes aspectos aparentemente parcelados e de âmbito restrito compensa-os abonadamente a proxémica da experiência e da autenticidade, indispensáveis para narrativas de maior abrangência em relação ao passado.
O presente volume, que o Dr. Lino António da Silva Martins Rei intitulou de Também eu estive lá..., pretende reviver, ou melhor reavivar memorial e emocionalmente, passadas quase três décadas, as vicissitudes, os sacrifícios, o espírito de camaradagem, de aventura e devotamento mútuo que rodearam a sua comissão de serviço no Norte de Angola, desde a entrada para o Curso de Oficiais Milicianos, no quartel de Mafra, em 6 de Julho de 1970, à sua estada no do Funchal em trabalho de adestramento de recrutas, ao retorno ao Continente para a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional em Santa Margarida, até finalmente ao embarque da Companhia no Vera Cruz, em 31 de Julho de 1971, rumo às terras do Uíge, donde regressou em 24 de Outubro de 1973.
Este espaço de cerca de 41 meses avulta aqui retrospectiva e sequencialmente recontituído pelo Alferes Martins Rei, através de um selecto mosaico de recordações e eventos cuja leitura, naturalmente agradável e nostalgicamente tónica, se salpica de congraçante humor umas vezes, outras inopinadamnete se larva de angústia e saudade, em contraste com retemperos alegres de forças em convívios eventuais. Oito dezenas de capítulos breves, aqui e ali ilustrados com algumas fotografias de velho álbum e vários poemas exorcismadores da solidão e da vida entre os perigos contínuos do mato, entretecem uma espraiada narrativa que, apresentando-se como "síntese do heterogéneo" na definição de Paul Rocoeur, acaba por a enriquecer de episódios que encaixam à maravilha na unidade da obra.
Martins Rei avisa que não quis meter-se por "caminhos de discernimento político"e manteve tal alheamento. No entanto, não lhe minguará certamente razão nas críticas que, longe a longe, vão aflorando a respeito da exploração local do trabalho escravo e na aceitação tácita, pela intromissão musical de alguns comparsas, de bem conhecidas cantigas alvissareiras. Infelizmente para os povos a que se referiam, estas em breve degeneraram em presságios sucessivos de tragédia, que se prolongou por muito mais tempo do que os treze anos de conflito anterior. Descolonização singularíssima, que sob o comando de lunáticos da nossa praça e da estraja, redundou na maior catástrofe da história africana a Sul do Equador.
Ainda bem, que Martins Rei passou delicadamenbte de lado. Portugal, contudo, a quem tantos milhares de expedicionários serviram, é que não pode fazer ouvidos de mercador amnésico e relaxado no cálculo. Há que através do Estado e do Governo, reconhecer direitos legítimos e incontornáveis àqueles que um dia, arrancados à família e ao labor profissional, foram mandados simplesmente para a guerra, uma guerra donde não desertaram como tantos que a sorte ou os partidos bafejaram, antes donde não poucos voltaram politraumatizados, no corpo ou no espírito quando não em ambos.
"A política é a arte de tornar possível o necessário" - escreveu Fernando Henriques Cardoso, Presidente do Brasil. Ora torna-se absoluta e inquestionavelmente necessária a sancionação desses direitos, acabando deste modo com flagrantíssimas injustiças. Martis Rei não  intentou, com o seu livro, lançar mais achas para a fogueira. Contentou-se com este polifacetado depoimento de campanha, que se desdobra, por trás de inúmeras peripécias, em comovido "in memoriam" dos que pereceram.
No entanto, saúde-se uma obra que sem dúvida concorrerá notavelmente para manter acesa, ainda que sob a cinza dos instalados no poder ou na reforma, a memória e doação daqueles que merecem superiormente da Pátria, bem mais do que muitos deles.
Amadeu Torres. "