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sábado, 26 de dezembro de 2015



 
Em entrevista à "Esposende Serviços TV", o autor fez uma antevisão do que virá a ser o seu próximo livro - RAÍZES - a ser lançado na Primavera de 2016, sobre a realidade esposendense aos anos 50', 60' e 70'  com os seus personagens reais e fictícios, num retrato vivenciado também pelo próprio Alex personagem principal dos 28 contos que complementam o livro. Lino Rei.
 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Um Natal diferente


Um Natal diferente

Só quem está fora da mãe-pátria pode avaliar, por si, o quão custoso é passar esta época festiva fora dos seus familiares e amigos; que o digam os nossos emigrantes, que o digam todos aqueles que nas mais diversas circunstâncias, algum dia, tiveram de comemorar o nascimento do Deus-Menino fora do seu torrão natal.

Retomando palavras do jornalista: “Para o milhão de combatentes que, ao longo de treze anos de guerra colonial, foi deslocado para África, o Natal constitui uma das páginas mais angustiantes das suas comissões, um trauma com data previamente marcada, um momento simbólico com raízes profundas na sua origem, na sua educação, na sua cultura, traduzindo o sacrifício físico e psicológico, a tristeza do afastamento familiar e a dor da guerra, em alegria do dever cumprido, por amor à Pátria, na ânsia do triunfo, com dádiva de suor e sangue” [1]. Também connosco não foi excepção.
           Tentando colmatar, de alguma forma, a reunião à volta de cada uma das nossas famílias na Metrópole nesta noite santa de Dezembro de 1972, também nós, a família da ÔNZIMA, nos unimos para a comemorar. O rancho foi melhorado com a carne de uma pacaça que o capitão e os alferes Nunes e Coelho tinham abatido para a ocasião; as grades de cerveja foram duplicadas; embora dificilmente, também lá se arranjou o bacalhau para a consoada; o whisky foi distribuído pelo pessoal; o vago-mestre teve que passar diplomas suplementares a tantos outros cozinheiros de ocasião que queriam demonstrar os seus dotes na cozinha, confeccionando e disputando especialidades, neste ou naquele bolo, que ornamentariam a longa mesa da messe desse dia; enfeites vários e velas de ocasião, davam o ambiente próprio àquela noite onde, disfarçadamente, ainda escorria, neste e naquele rosto, alguma lágrima de saudade que, teimosamente, fazia lembrar cada um dos seus. Era noite de consoada.
No fim do repasto e já bem regados, era a ocasião para a apresentação da Parada de Estrelas improvisada mesmo ali à mão. Foi o furriel Lopes, um alfacinha de gema, que deu o mote, com dois ou três fados corridos que logo tiveram o coro acompanhante de quantos ainda recordavam a letra. De imediato, o furriel Cunha (de saudosa memória) perito em letras e canções de intervenção (nesta altura a PIDE parecia andar arredado do mato) ripostaria com a declamação do Pedro Soldado, de Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira:

Já lá vai Pedro Soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome gravado
Num saco cheio de nada
Triste vai Pedro Soldado

Ainda as palavras trovejavam no ar quando outro soldado madeirense entrava na competição, cantarolando, Paco Bandeira, no Lá longe onde o sol castiga mais…

Quem nunca viu
Quem nunca andou a combater
Não dá valor nem faz ideia o que é sofrer
Ter de matar
Para não morrer
Saber sofrer sem chorar
Saber chorar a sorrir
Lá longe
(…)

Para não ficar atrás, o alferes Coelho, lá foi trauteando um fado coimbrão, a Samaritana, provocando um disfarçar de olhos vidrados aqui e ali. A noite não ficou completa se os meus camacheiros, liderados pelo Emanuel e pelo “Caganeira”, vestidos a rigor com umas toalhas de ocasião e com as damas improvisadas, não rematassem com o Bailinho da Madeira, pondo toda a malta a dançar e a fazer mais depressa a digestão. Na parte que me toca, lá me fui revezando na viola e no acordeão, ajudado por um sexteto rítmico, no matraquear dos talheres nos copos. Já a noite ia alta, ainda nos ecoavam nos ouvidos as últimas estrofes do nosso Malhão. Era hora do descanso do guerreiro e, nessa noite, até o corneteiro teve de fazer horas extraordinárias.

 

 

 




[1]  RIBEIRO , J., Marcas da Guerra Colonial,  Colecção: Campo da Memória-2, Ed. S.A. 1999, p. 225.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ca - A instruçãop. 6


Cap. 6

A instrução

A nossa instrução distribuía-se por quatro áreas: 1) teorização e manuseamento das diversas armas e prática de deslocação pelo mapa na diversidade dos tipos de terreno e a que se juntava a Ordem Unida [1]; 2) carreira de tiro, onde se treinavam as mais variadas armas e que nos deixava surdos para o resto da semana; 3) exercício físico, sobretudo as corridas de meio fundo e as passeatas[2] pelo pórtico, galho, corda, muro, rapel, slide, corrida de obstáculos e a famigerada lagoa[3], entre outros; 4) semanas de campo com movimentações noturnas e diurnas em que nos presenteavam com algumas rações de combate, numa engorda forçada ao nosso “cabedal”, por umas não sei quantas mais cartucheiras, granadas, G 3, tenda, poncho e colchão de campanha, que nos iam arreando a cada passo, de forma a experimentarmos a vida de burros, já que mais parecíamos bestas de carga.

Confesso que não me senti tão mal assim nas provas físicas, até me alcunharam de “perna eléctrica”, pois em velocidade e resistência ficava quase sempre lá na frente do pelotão; o mesmo se diga no tiro, onde, apesar do chinfrim dos balázios, até conseguia discernir algum som musical. Idem na parte teórica dos testes, tipo código de instrução hodierno, sistema americano, onde tínhamos de acertar em uma de quatro respostas, algumas de tal forma ambíguas que às vezes nem o Espírito Santo de orelha ou a lotaria ajudavam grande coisa!...

Na Ordem Unida, onde se apurava a forma de marchar e outros movimentos de coordenação, nunca havia rotina. Desde o  “ombro… arma”,  “frente… marche”, “alto!”, “descansar … arma”, e outras mais ordens em parada, já fora do quartel, a caminho de uma qualquer instrução ao ar livre, aquando da passagem de uma beldade de ocasião, o chico do alferes sibilava: “alto!”, “apresentar…arma”. Assustada a moça e fugindo a sete léguas, logo a marcha prosseguia para “passo de corrida” pois os bravos de pelotão monodiavam já um Solesmes feito gregoriano de ocasião:

 

O cadete é o melhor da tropa

Quando lá não está mais ninguém

As mulheres até ficam loucas

Co’as estrelas que a sua farda tem.

(…)

 

Até que se fazia tempo de voltar á Tapada para mais umas incursõezitas feitas de orientação mapa-bússola, tipo pady paper, assustando aqui e ali veados, gamos e javalis à solta, resquícios aos tempos de D. João V e que fizeram as delícias de monarcas que, alojados no Convento, se queriam dedicar à caça.

         Ao almoço, era tempo de saborear uma frangalhada com arroz à caril, ou outras ementas de engorda, nas mesas gigantescas de mármore do longuíssimo refeitório abobadado da messe e caiado a imaculada brancura.

         Na instrução da tarde seguia-se outra dose industrial, tirando-se azimutes a tudo quanto era sítio ou cota para, logo mais, se bombardear em morteiradas um pseudo-inimigo, alojado algures em morro de aldeia vizinha, mas que dele só restariam umas reencarnações de passarada assustadiça que debandava para outros sítios, receosa talvez que a 3ª Guerra Mundial começasse por aquelas paragens! E em passo de corrida lá voltávamos ao quartel-convento para confessarmos os nossos pecados por tanta “matança” feita. Não contentes com uma guerrazinha menor, logo nos prometiam, para o dia seguinte, um concurso de pesca desportiva nos “perfumes” da lagoa, acossados por bala real ou granada lançada por instrutores sádicos e dementes; em alternativa, éramos convidados a uma familiarização mais chegada ao galho, pórtico, rapel, slide, túnel, corda, salto de obstáculos e coisas do género, acabando este e aquele cadete numa visita forçada à enfermaria, co, relatório a transparecer um “excesso de zelo” no treino a decorrer! Éramos ainda os “filhos de um deus menor”. O que nos reservaria o Olimpo do Ultramar?

         Após a instrução da tarde tínhamos uma lufada de ar fresco fora do quartel, no que aproveitávamos para atacar os cafés da vila em “golpes de mão” que equilibravam as nossas proteínas, já que a comida do rancho mais parecia condimentada a soda. De soslaio, lá se “iam tirando as medidas” às poucas beldades de ocasião que, já calibradas com tanto mânfio e todos do mesmo clube, “davam às de vila Diogo” ao ouvirem alguma promessa de eterna fidelidade para pertencerem ao rol das casadas, em namoros relâmpagos quanto poderiam ser os de cada instrução. Sonhos nossos que também só duravam enquanto não fôssemos acordados pelo toque de recolher ao quartel.

Decorreram assim os meses da recruta e da especialidade, findos os quais, a 27 de Novembro de 1970, recebemos os galões de Aspirante a Oficial – uma estria diagonal dourada em fundo preto – passando agora a estar mais atentos a corresponder às continências do que, antes, a tentar evitá-las.

         Embora garbosos de um estatuto que há seis meses atrás era só “para ver por uma canudo” pelas dificuldades passadas, não imaginaríamos talvez o que nos adviria mais tarde pois que cada rubrica e autorização nossas eram um atestado de co-responsabilidade a assumir, não só perante os graduados inferiores, classe dos sargentos e praças, mas sobretudo perante os oficiais superiores.



[1]  Formação e movimentação apeada uniforme de uma unidade militar à voz de um comando.
 
[2]  Tom jocoso pelos quais, dada a sua dificuldade, eram conhecidos estes obstáculos; na verdade, um salto mal calculado no galho - árvore com  um  ramo descascado para o qual o instruendo se teria de arremessar de uma certa altura e a determinada distância deste por forma a ficar nele suspenso - ou o medo e o tremor das alturas quando no pórtico - pilares de cimento dispostos em forma de quadrado com uma largura  de menos de 40 cm e vários metros de comprido e a cinco metros de altura do solo, que o cadete teria de percorrer - e no muro - parede mural encimada em feitio ovoide e que separava zonas específicas da tapada de Mafra, mas de alguma extensão e a x metros de altura, que o instruendo teria não só de atravessar, como numa fase mais adiantada tentar acelerar -, punham em risco a integridade física de cada um de nós.
[3]  Charco de dimensão e profundidade variáveis onde proliferava a mais diversa imundície que os cadetes teriam de transpor, sobretudo de noite e no meio de um intenso tiroteio – às vezes com bala real ! – iam rebentando, à mistura, granadas e de que resultavam, muitas vezes, acidentes, alguns até mortais, e que faziam o gáudio de certos instrutores sádicos e o medo inconsciente e bem real dos instruendos.

Cap. 5 O Ritual


Cap. 5 

O ritual

Sair e entrar no novo “principado” de Mafra exigia “passaporte” e este dependia dos humores de ocasião do oficial de serviço. Para passar a “fronteira”, os pedidos, em papéis coloridos, eram solicitados de véspera. Assim, havia licenças de nojo, de casamento e outras, a que juntavam as de simples ausências do quartel e, as mais desejadas, as de fim-de-semana. Na formatura de saída, em longas filas rabeando e antes que se acertasse com a perspectiva da perpendicular na horizontal da Ordem Unida, vociferada em guinchos baritonais pelos cabos milicianos de serviço, como se de desfile de misses se tratasse e à falta das medidas ideias a serem avaliadas (peito, anca, coxas), o cadetezinho tinha de apresentar-se todo engomado da cabeça aos pés.

Na parada, os candidatos à “deserção” temporária, excediam-se em parafusos de imaginação de asseio equacionado as trunfas aparadas (à escovinha ou à máquina zero) de forma a aureolar a boina ou o boné regimentais, barbas escanhoadas à meninos de coro, botões dos blusões  mais que lustrosos nos respectivos “apartamentos”, armas de latão  e estrelas de instruendo nas ombreiras a espelhar e, sobretudo, o cinto brasonado que chamava a atenção para o vinco impecável das calças; a peritagem não se ficava por aqui pois o teste final estava reservado para os sapatos ou as botas conforme o uniforme a sair. Para o efeito, havia que “dar férias” ao segundo par suplente, uma vez que agora o ritual era mais exigente e no início as “chuteiras” ficavam mais bassas que vidro de para-brisas em nevoeiro cerrado, o que adiava a provável saída para as calendas gregas! Com a experiência, a estratégia aconselhava a rapidez do verniz, umas escovadelas histéricas com o último grito em graxa “made in China” ou, quando em urgência, os ofícios de sapateiro entendido e que constituía o gáudio do cadete perante o elogio do comandante num “ bravo, nosso cadete, pode sair e um bom fim-de-semana” e quase a merecer medalha de guerra!

Corríamos tresloucados para a porta de armas e passada a circunscrição do nosso “principado” voltávamos aos condados da terra natal de cada um, sem que antes, no comboio ainda em andamento e em rapidinhas aos W.C. nos desfizéssemos daquelas fardas engarrafadas  à pressão, passando a aperaltar-nos à civil e a evitar outras inspecções da pegajenta Polícia Militar, com faro predilecto para embirrar com magalas e cadetes, nas estações de S. Bento ou Campanhã. Na viagem de regresso, o processo invertia-se e alguns, ainda sonolentos e mal dormidos pelas primeiras classes das charretes e “expressos do Oriente”, mal tinham tempo, à porta de armas, de endireitarem a gravata, quando não se apresentavam até com as botas trocadas!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Cap. 4 - A recruta


Cap. 4

 A recruta

Ignorante dos procedimentos militares, fui apanhando o jeito a decorar os graus hierárquicos, desde Soldado pronto, até Marechal e batendo pala[1] a tudo quanto tivesse divisas e galões[2]; no fim da especialidade prometiam-nos o grau de Aspirante a Oficial mas, até lá, não passávamos de uns míseros capachos em quem toda a tropa pronta[3], procurando talvez saciar a sua ambiçãozinha frustrada de subserviência militar, descarregava também a sua própria frustração, o que ocasionaria, mais tarde, uma certa sede de vingança, virando-se o feitiço contra o feiticeiro.

Calhara-me na rifa, na recruta, um dos muitos alferes chicos[4] que proliferavam na instrução, se bem que, felizmente, não tivesse sido tão mal assim se comparado com os que nos lotearam na especialidade. Este outro, peneirento quanto bastasse, comprazia-se mais em passar lustro aos galões, amaciar a pistola Walter e gabarolar-se de suposto engatatão; não se compadecia das inúmeras flexões que nos fazia pagar por “dá cá aquela palha”, quando não nos rebentava a todos, após uns crosses bem puxados até à Ericeira, a 15 quilómetros de Mafra – depois de termos “assinado o ponto” do camuflado nas ondas da praia e, no regresso, o irmos secando, ainda colado ao corpo; outras vezes, para não variar daquela rotina, fazia-nos acordar, estremunhados, quais despertadores em automatismo contínuo, lá pelas três ou quatro da matina, para alinharmos na parada, a foras desavindas até para mochos e morcegos, só para nos desejar: “boas noites, continuem a dormir bem”! E lá voltavam, os nós para a enxerga.

“Carimbados” como qualquer peça de gado e quase perdendo a identidade como indivíduos, com um número mecanográfico X sempre antecedido do respectivo apelido, era dessa forma que nos apresentávamos aos superiores militares. Recordo que na especialidade passei a fazer parte do 5º Pelotão, nº 108 da 4ª Companhia de Instrução, 2º Ciclo, C.O.M. Mafra.

Não muito conscientes deste exílio forçado, era natural que uns tantos tentassem desertar e, na altura, pelo menos uns quatro ou cinco acabaram por fazê-lo. Lembro um cadete que, ardilosamente, se deu ao luxo de levar como recordação umas tantas peças já desmontadas da G 3 a caminho da Bélgica!



[1] Fazer continência aos superiores militares levando a mão esticada ao lado direito da testa pelo que também deve ser correspondido de igual forma pelo superior.
[2] Pequenos rectângulos de fazenda apostos às ombreiras da farda militar pelos quais se distinguiam as várias patentes hierárquicas.
[3] Os militares do Quadro que já haviam cumprido a instrução.
[4] Nome pejorativo pelo que eram conhecidos os oficiais de carreira da Academia Militar.

Cap. 3 - Os primeiros dias no quartel


Cap. 3

 Os primeiros dias no quartel

No dia seguinte e após vista grossa do sargento de manutenção ao meu físico empacotado nos seus 49 quilitos, foram-me distribuídos os uniformes nºs 2 e 3 para usar na instrução (o nº 1, facultativo, era o uniforme de gala, a expensas nossas) constituídos, respectivamente, por números de pares de calças, camisas, blusões, quico e boina, botas de lona e cabedal, cantil, marmita e a espingarda em uso na altura, a G 3, além de outros apetrechos indispensáveis à instrução. Surpreso fiquei quando o sargento me preveniu que teria de entregar tudo no fim da recruta!...

Experimentando os novos fatos-macacos, de cor verde-garrafa, quase me senti um astronauta, pois parecia navegar no espaço, tal o desperdício de fazenda para um somático tão franzino e cuja pele até tentava emigrar do corpo por ter vergonha de aí ficar embrulhada. Logo, fui reclamar outro fardamento, pois no distribuído caberiam não um Rei [1] mas quase toda a família real junta, já para não falar das botonas tão largas e compridas que os dedos dos pés se afligiam com tanto estacionamento! Em resposta, só ouvi um grunhir do sargento, cuspindo de asneiras o cabo da arrecadação para que se despachasse com mais fatos-macacos, e de que “não havia mais trocas e que as fatiotas iriam ao sítio logo que visitasse a Lagoa” – mais tarde, havia de perceber a graçola e dar-lhe razão. Lá me consolei quando na formatura de apresentação na parada, reparei no cadete [2] Carapeto, espremido dentro da farda e rebentando pelas costuras no seu enchido de peso-pesado, e o Sousa que mais parecia ressuscitado da lavandaria, minguado em calças uns 20 cm para os seus 1,90 de altura!...

Entretanto, adaptados os ossos e a mente à nova realidade, foi tempo do primeiro susto. Nesse primeiro dia, enquanto decorria a instrução e ficávamos a saber os nossos lugares no pelotão e os respectivos comandantes, eis que surge em plena parada uma ambulância militar transportando dois cadetes feridos, do 2º turno de instrução, e que quase “batiam a bota” nos exercícios da lagoa pois não tinham aguentado a pressão!

 

 



[1]  No serviço militar somos reconhecidos pelos nossos apelidos.
[2]  Instruendo a oficial.
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Também eu estive lá...


Cap. 2

 

Mafra  06 de Julho/70

 

Despachado a Guia de Marcha, como era costume do Exército para qualquer itinerário a fazer pelos militares incorporados nas suas fileiras, lá aterrei no quartel do convento de Mafra, à altura, a servir de COM (Curso de Oficiais Milicianos). Por chegar fora de horas e à civil, o que terá surpreendido o soldado de serviço e de plantão à porta de armas que não me conheceu de lado algum, logo ele me questionou ao que vinha e logo lhe respondi ter sido colocado ali para o tirocínio do Curso de Oficiais Milicianos. Chamado o Oficial de Serviço, este pediu-me a identificação e, confirmado o meu nome numa extensa lista, mandou guiar-me até uma caserna, através de labirínticos corredores, onde já dormitavam uns tantos desconhecidos que, mais tarde, haveriam de ser os meus camaradas de armas. Cansado como vinha, quase me apetecia dependurar-me no cabide do armário mais próximo, com roupa e tudo, mas acabei por atirar o esqueleto para a enxerga do beliche mais à mão, só acordando ao toque da alvorada.

Para trás, havia ficado interrompido um ciclo de estudos e experimentava agora uma nova aventura, mista de voluntariado à força e de autoimposição, na procura de um novo rumo a dar aos meus 22 anos, idade em que todos os sonhos são possíveis.

Escusado será dizer que levei um par de dias para me situar na “avenida” da minha caserna – La Fayette, se bem recordo – pois os corredores do quartel, situado na ala sul do convento, eram de tal forma compridos e de inúmeras transversais acima e abaixo que, o mais das vezes, eu acabava por desaguar no sítio errado. Dizia-se até que o convento, com as suas 4.500 portas e janelas, tinha tanta ratazana nos seus alicerces que era ineficaz qualquer raticida, antes, os faria multiplicar indefinidamente, de modo que a cambada constituía uma tropa de elite à parte, com generais ancestrais tão gigantes que assustavam qualquer mortal!

De resto, a malta haveria de compartilhar ainda a caserna com outros comandos, já lá instalados, cujas comichões bateriam em número qualquer record para o Guiness !

 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Alvados/99 - Do livro "Também eu estive lá..." de Lino Rei (ex-alfers da C.C. 3411 - Angola 71/73)


Cap. 1

 

Alvados/99

 

Alguns já com estatuto de avós:

- (…) eh, pá! Tenho lá um que é assim pequenino também - Olhando uma foto de um neto de um camarada - É mais pequenino que o teu… tem 14 meses, não fala, mas que traquinas!...

A propósito de velhos craques no futebol de salão no Songo:

- (…) porra, pá, foi pena na altura não seres vendido ao Arsenal (ao Varela, o algarvio). Este gajo era um ponta de lança do carago, era a estrela da Companhia e da nossa equipa. Eh pá, lembras-te de uma defesa que fiz que quase parti os dentes todos ? Ah que rica equipa que a malta tinha: o Ornelas (jogava p’ra raio), o Paulo, o Leite, o Mota, o “Caganeira” que só de paleio driblava o pessoal todo – Risotas; chegamos a ir a Carmona disputar as finais (…) velhos tempos!...

Ataca o Pegado, a propósito de umas noitadas ainda na Madeira:

- Ó Rei, lembras-te daquela noite no Funchal?

- Eh pá!... Isso fica no segredo dos deuses – Gargalhadas estridentes – Mas nunca contar às nossas mulheres aquilo por que passamos! Nada! Só de lembrar essa coisa… - Um olhar de soslaio às respetivas consortes, de algum dia lhes desvendarmos o segredo.

         Ao partir do bolo:

         - Como é, ninguém bate palmas? – Subtil a filmar. Eh malta, o Laranjeira está agora a cortar o Sonso do mapa. A quem vai tocar a fatia da Quivuenga? – Risota geral.

         Ainda a propósito:

         - Eh pá, isto está mesmo uma delícia!... – Interrogações na malta – ‘Inda vive na serra da Mucaba!... – Risota geral.

         A propósito de algumas calvícies já acentuadas:

         - (…) não é velhinhos que se diz, é  u-s-a-d-o-s!...

         Já ao champanhe e quando a discussão era sobre futebol:

         - Porra, pá, parece que ‘inda estás cheio de fome, carago! – Ataca o Couto que já havia desabafado quase meia comissão de serviço e que tinha tido o baptismo de mato no meu pelotão – Estás tu e o Benfica… bebe que p´ró ano há mais!... Já temos o tetra, o penta e o hexa vem já a seguir ! – Assobiadelas nas hostes adversárias.

         Nas despedidas – discurso do Beja:

         - (…) faltou ainda o camarada Sousa, de Lagos, dada a distância e o facto de andar em hemodiálise três dias por semana mas manda um abraço à malta (…).

         - (…) P´ró ano, vamos ver se o encontro é na Madeira, vamos pôr o Calisto a tratar do assunto da TAP p´rá coisa ficar mais em conta (…).

         Logo um outro no meio de um café:

         - Nossa, meu, não me ponhas à beira do Sousa senão fico sem comida! – Gargalhada geral.

         Ainda a organização, a cargo do Laranjeira:

         - (…) Quero recordar três nomes: o caso do furriel Basso, o caso do motorista “Apúlia”, o caso do furriel Cunha e, como não podia deixar de ser, o nosso malogrado capitão Pinto de Morais. São quatro pessoas que no fundo vamos congregar e recordar neste nosso encontro. Solicito a todos um minuto de silêncio em homenagem a estes camaradas falecidos – Silêncio prolongado com uma ou outra lágrima a disfarçar a emoção do momento. Desejo um bom regresso às casas de cada um. Até ao ano.

         Seguem-se as despedidas com abraços a cada um em particular e saudações aos respectivos familiares.

 

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

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Braga 13/01/2015

Olá, ex-camaradas e amigos deste blogue, tudo bem convosco e com os vossos ?
Antes de mais, e no dealbar deste novo ano de 2015, quero desejar a todos os votos de tudo o que de bom a vida ainda tem para vos  oferecer, no que se inclui a saúde que é o bem mais precioso que se pode almejar pois o resto virá por acrescendo.
No princípio deste novo ano civil seria sempre de fazer-se um balanço do alcance que este blogue tem tido nos vossos passeios virtuais e, mais que isso, no reatar e fazer pontes das vivências aos tempos das nossas "guerras", afastados agora que estamos e lutamos pelas outra "guerras" do dia-a-dia, com mais ou menos afazeres profissionais e, quiçá, a maioria  já "do outro lado da picada" a gozar o tempo merecido das suas reformas e/ou aposentações, pois para isso contribuímos mais que alguns políticos da nossa praça.
Confesso também que tenho andado descuidado, um tanto ou quanto, de uma participação mais ativa no blogue e apenas pontualmente vou escrevinhando algo de jeito, após que quase tudo o que foi dito, escrito e fotografado já quase se tenha esgotado no tempo e sonhemos de meras recordações quase esbatidas no tempo e que agora tentamos perscrutar debaixo das cinzas de uma realidade que já o foi, há uns bons 44 anos, o que, convenhamos, é muito tempo mas que para nós ainda parece que tenha sido ontem.
Mas por aqui foram e vão pululando alguns flashs dessas recordações sob um olhar diferente e quiçá com outra perspetiva vivencial que na altura nem sonháramos, num contexto de combatentes à força e em pró de um Portugal-nação e hoje completamente fora do seu contexto existencial, antes, globalizado por essa Europa fora e onde o meu vizinho pode estar à distância de milhares de quilómetros mas à velocidade de um micro segundo de proximidade com estas novas tecnologias.
E sem querer filosofar mais, deixo-vos uma mensagem de esperança para que tudo se realize a vosso contento enquanto por aqui nos vamos aproximando em convívios pontuais e amizades que se querem duradouras e mesmo afastados em longitudes e latitudes nos haveremos de aproximar.

Lino Rei