
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Férias ...

Crianças
Debatiam-se, no Conselho de Turma, os prós e contras para transitar o “Bravo” – nome de guerra por que era conhecido na escola o Barbosa. O seu cardápio escolar, mais longo que o último episódio de novela TV, em participações de todo o género, primava pela falta de educação e expulsões várias. A perspectiva de avaliação final de ano apontava para as já esperadas oito negas, não fora a complacência de um ou outro professor que destoou do grupo, pela atribuição da positiva mínima.
A alcunha viera-lhe do apelido que ele teimava em escrever Bravosa pois a sua configuração física destoava do normal da turma de dez e onze anos e onde, como em camisa de sete varas, o obrigaram a ter de fazer parte. Protagonizaria, por tal motivo, cabeça de cartaz, em decisões de litígio de recreio, já para não falar dentro da sala de aula que constituía o teste supremo, para qualquer professor que, a ser ultrapassado, poderia candidatar-se à santidade dos altares, tal a paciência exigida para com o sobredotado.
Nos seus 16 anos bem maduros, as capacidades cognitivas do “Bravo” mostraram-se pouco acima do limiar zero do Q.I.. O Conselho continuava com o dilema, temendo que mais um chumbo conduziria este “iluminado” ao abandono escolar. Um colega sugeriu que o transitassem pois enquanto permanecesse na escola não faria razia lá fora; razões extra, de pais separados e alcoólicos e a proximidade ao tabaco e à droga, vieram à baila e a tripla retenção acabaria por corromper a próxima turma onde recaísse. O Conselho concordou com a sua passagem, ao abrigo do tal artigo, avolumando cada vez mais a santa ignorância deste país.
Mas o caso não se ficou por aí, pois, logo mais, em nova reunião de um outro Conselho de Turma, um encarregado de educação não se convenceu de todo com os argumentos deste órgão da escola, idealizando para o seu educando um projecto de engenheiro, pois teimava que o filho haveria de sair doutor! A Ordem deliberara que o pequeno “Eiffel” tinha ainda muito tempo para rever os cálculos dos alicerces para as futuras pontes, pois as actuais caíram por terra, tal a ferrugem por tanta ignorância acumulada. E o assunto ficou definitivamente encerrado.
Alex reviu os seus tempos de escola primária onde, sem tantas reuniões, as coisas funcionavam no sentido de, no mínimo, saber-se ler e escrever e quem nãe era competente ficava de molho até o poder fazer. To be or not to be, passar ou não passar de ano era um ponto de honra a defender pois a “raposa” era um estigma duro de suportar; o insucesso andava associado, não à falta de inteligência da criança mas à fuga da escolaridade, por ter de ajudar-se a família ao provento do dia a dia.
Recordou então os “Passarinhos”, os “Gatinhos” e os “Morrosóis” que coitados, mal se resguardavam daqueles frios invernosos, em farrapos e andrajos de ocasião que fingiam proteger corpos magricelas de geração de crianças grandes. Por isso, o pó das carteiras ia-se avolumando com as suas ausências, requisitados ao mar, em catraias de cascas de nozes que não era suposto arribarem ao cais cada manhã. Outras vezes, ainda ensonados da faina marítima, anestesiada a fome com o naco de pão bolorento e a tigela de caldo de couve e massa esbranquiçada, tentavam afinar à tabuada, enquanto endireitavam a caligrafia pelas linhas do caderno ou (des) convertiam metros a centímetros, sob a ameaça da palmatória do professor fazer os respectivos acertos nas suas já calejadas mãos.
Naquele tempo, a cana comprida do mestre sibilava-lhes ao redor das cabeças fazendo-os acordar para as regras de comportamento, para os cursos dos rios e linhas-férreas a decorar. Ai que se queixassem em casa pois ainda tinham dose a dobrar! A escola ensinara-lhe certos valores, como a amizade, a solidariedade e o respeito quase sacrossanto pelos pais e professores.
Vieram-lhe à memória aquelas Quartas Feiras em que a sala de aula virava tribunal e em que a “Santa Catarina” transformava as suas mãos em tachos de estrelar ovos e nem cabelo de cavalo com azeite ajudava a tornear a dor, enquanto grossas lágrimas escorriam pelos "crimes" cometidos: quatro erros no ditado, por confusão dos ésses dos botões cosidos com os zês das fanecas cozidas; dois problemas errados, na aritmética, por se ter roubado mais ao quilo do algodão que ao litro do vinho tinto. Se era na História, cometera-se o sacrilégio de alterar a cartilha, confundindo-se o rei Gordo, D. Afonso II, a plantar o pinhal de Leiria enquanto D. Dinis, O Lavrador, distribuía mais umas sacholadas valentes no costado dos mouros, ganhando para Portugal a quinquagésima batalha desde O Conquistador. A coisa ficava ainda mais feia na Geografia do reino, quando alguém desviava o Cávado do seu leito para o desaguar ali para os lados do Forte de Viana, com comentários críticos do professor quase a merecerem prisão no dito cujo. E que dizer então das linhas férreas onde a ignorância da petizada fazia até descarrilar comboios pelo desvio das agulhas ou, quando aquele mais sabido direccionava a Linha do Norte para um apeadeiro desterrado na fronteira de Espanha, pondo em perigo até a unidade nacional!?
No tribunal das Quartas Feiras, uns tantos sujeitavam-se à dose suplementar da palmatória, por riscos nas carteiras, salpicos de tinta permanente no soalho, estilhaços de vidros da sala com a bola de farrapos ou bexiga de boi de matadouro, confrontos físicos com colegas, surripianços de ardósias dos vizinhos de carteira, entre outros "crimes"!
Nessas ocasiões, a professora também lhe ensinara, no Canto Coral, o Hino Nacional, o Não vás ao mar Tonho, as Pombinhas da Catrina e tantas outras canções que eram disputadas em altura tímbrica com os mais velhos já conhecedores de todo o reportório coral, por repetências acumuladas. Ninguém estranharia sequer as mudanças de vozes de alguns “Pavarotis”, do garnizé ao galináceo mais apurado, camuflados atrás do coro, que de boca aberta fingiam-se aos barítonos e baixos. Havia ainda quem as fizesse pela calada, em incursões aos bolsos dos calções, disputando uma e outra perisca, apanhada no passeio e a ser fumada na retrete da escola, no intervalo seguinte. Se a dita cuja não chegava para todos, dividia-se irmãmente o prazer e assim enquanto os mais velhos fumavam os “charros”, os demais iam treinando com cigarros de barba de milho!
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Fachion/72. Os 7 magníficos ...

terça-feira, 29 de julho de 2008
Festival internacional de Danças de salão...

segunda-feira, 28 de julho de 2008
Cena do filme "Os 4 mosquiteiros"...

domingo, 27 de julho de 2008
Disputando a(s) dama(s)...

sábado, 26 de julho de 2008
Aniversário da ÔNZIMA

sexta-feira, 25 de julho de 2008
Gaivotas do rio
5. A inundação
No torreão do Salva-Vidas, o saco preto obedecia a uma sinalética para os pescadores. Se este se apresentava de pernas para o ar, significava que o vento soprava de sudoeste. Se aparecia uma bola preta, este soprava de Oeste. Na ocasião, era prenunciadora de mar alto e mau tempo, com a barra fechada à navegação.
Nesse dia invernoso de Fevereiro, a chuva fustigou por demais a orla marítima. Madrugada dentro, coriscos e trovões abanavam as ténues casitas da Ribeira. Durante toda aquela santa noite, Alex não conseguiu pregar olho e enrolou-se, cheio de medo, por entre os míseros cobertores que cobriam ainda a nudez dos pais.
- Minha Nossa Sra. da Bonança – ouviu rezar a mãe – fazei-de abrandar a tempestade!...
O pai, acordado e sobressaltado pelo último relâmpago da borrasca, acendeu o velho candeeiro a petróleo, na cabeceira da cama, logo espalhando sombras fantasmagóricas pelo teto fora e exalando um cheiro familiar, anestesiando, de imediato, meia dúzia de pulgas, nos já rasgados lençóis. Foi-se dar uma olhadela pela janela do mirante e torceu o nariz, pois a tempestade estava brava, fustigando as vidraças, aqui e ali já meias alanhadas e tapadas a betume. Duas pingas teimosas tinham já furado o soco de madeira e escorriam soalho fora.
- Vou lá abaixo buscar um alguidar para aparar esta água – rosnou para a mulher.
- Vai, mas anda depressa que eu até tenho medo. Que farão esses desgraçados dos pescadores por esse mar adentro!? Ouve lá, a campanha do tio Tuta não saiu para as rascas?
- Não sei mulher, com este mar de Cristo quem é que se atreve a sair da barra? Vou descer para remediar isto. A propósito, não tens umas rodilhas para enxogar a água?
- Estão ao pé do cântaro, ao lado da máquina de petróleo.
Para não ficar com a casa às escuras, por medo do rapaz, o pai tentou acender o toco de vela de estearina da Sagrada Família, que, com a humidade dos fósforos, teimava em não dar-se à luz, sendo preciso recurso ao isqueiro de pederneira. Desceu as escadas com o candeeiro, em ceroulas de flanela, para o ofício em mãos. Quando chegou ao pé da porta, ficou atónito com o que vira:
- Mulher – berrou – anda cá abaixo depressa que a casa está toda inundada! Traz-me aí as botas de água que isto mais parece um rio!...
A cozinha tinha já uns bons 20 centímetros água acima, pela maré viva do rio, a que se juntara também o lodaçal da chuva. Duas ratazanas assustadas tentavam nadar para porto seguro pois os buracos apodrecidos do rodapé já não inspiravam grande confiança. A velha gata Tirone saltara para a mesa de jantar, e de pelo eriçado, temendo talvez pela sua sétima e última vida, arremessara, borda fora, os garfos tridentes de ferro, acabadinhos de brilhar e esfregados a cinza de véspera, e as colheres de alumínio, do presigo do jantar.
Um cheiro a maresia invadiu o corredor enquanto o penico do quarto boiava de um lado para o outro como que imitando o Titanic em naufrágio. Pelas frinchas da porta da frente, a corrente ameaçava invadir cada vez mais o resto da casa, não foram umas rodilhas e farrapo de cuecas velhas fazerem tampão, minimizando os estragos. A mãe, em camisa de noite, acorrera e perante o cenário, faltou-lhe a respiração e quase desmaiara.
Rua fora, ouviam-se pedidos lancinantes de socorro, enquanto rafeiros assustados pareciam periscópios, tentando emergir à tona da maré. Mais além, porcos, gatos, galinhas e coelhos de criação boiavam à deriva, já mortos.
Para os lados da capela de S. João, os juncos não resistiam à fúria das águas e vergastavam de tal forma as costas ao santo que o coitado bem que lhe apeteceu voltar de novo ao deserto, a comer gafanhotos e mel silvestre!
Entre portas, recitavam-se ladainhas a todos os santos e mais alguns; esgotadas estas, rezavam-se rosários completos à Senhora da Saúde e dos Navegantes, cheios de convicção e fé religiosa. Também o Senhor dos Aflitos não escapou a tanta invocação e poderia estar certo que não lhe haveriam de faltar mais velas na sua capelita, ali para os Bombeiros velhos, por tanta promessa feita nessa noite. Até os Romões invocaram a Bíblia, no Noé da família, para fazer descer as águas!
Qual quê?
Nas 7 casas dos pobres de S. Vicente de Paula, a situação era desoladora:
- Valha-nos o Senhor dos Aflitos, lá boiaram os tabuleiros das linhas da faneca e o espinhel do congro do meu hóme – gritava a Maranhona.
Ao lado, os Quintinos assistiam ao último milagre dos seus Santos Antónios de granito pois estes ainda resistiam ao dilúvio e, mesmo com água pelo pescoço, permaneciam de pé e inquebrantáveis na sua fé. Valera-lhes, talvez, terem pregado aos peixinhos!
Mais aflita, chorava a Mariquinhas:
- Ai, minha mãezinha, quem nos acode que a maré está-me a levar tudo de casa. Lá se foi o meu porquinho!
- Meu rico Sãojoanzinho, valei-nos nesta aflição – implorava a do Airinhos – afogaram-se as minhas ricas galinhinhas!...
Uns vaticinavam até que se estava no fim do mundo. Mais em surdina, alguém invocava as bruxas ainda vivas – as mortas quiseram lá saber! - E afiançava-se até que por ali passara procissão de defuntos!
Vade rectro!
A tempestade não parava.
Horas depois, lá chegaram os Bombeiros que pouco mais puderam fazer que acudir aos vizinhos mais necessitados e arredar o lodo e o lixo das ombreiras das portas. Tentaram, em vão, desobstruir os aquedutos e caleiros entupidos mas a corrente dificultava-lhes a missão. A escuridão era total por falta da lâmpada fundida do único poste que, de tão inclinado, ameaçava também abater-se. Os faróis do carro de socorro varriam, noite fora, outros fantasmas, nos xailes pretos do mulherio da vizinhança que passou toda a santa noite desperta, tal o medo por algum desastre maior.
- Sta. Bárbara (…) R/ Ora pro nobis – prosseguia ainda a ladainha numa das casas, frente aos quadros dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
No dia seguinte, foi o contabilizar dos prejuízos, avolumando ainda mais a miséria desta gente.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Concerto para cravo e solista ...

quarta-feira, 23 de julho de 2008
Euros e euros...
A guerra do Iraque já fez mais de um milhar de mortos entre os soldados norte-americanos e da coligação, desde que foi derrubado o então poder instituído do governo de Sadan Hussein, e, proclamada a tomada de posse por parte da coligação (…) a guerrilha, continua activa, após a passagem do poder para o novo governo instituído. A paz parece ser cada vez mais difícil de instalar-se, recorrendo agora a guerrilha a outras formas de destabilização, com raptos à mistura e a exigir dos países envolvidos a retirada das suas tropas (…), ouviu-se na SIC.
Atento ao desenrolar das últimas, o amigo Heitor aproveitou para deitar conversa:
- Eh, pá, já viste isto? Está pior que no nosso tempo. Estes cabrões mereciam era que lhes fizessem o mesmo “Olho por olho, dente por dente”.
- Se isto fosse por cá não sei o que seria – adiantou o Rogério.
- Dizem que nem temos submarinos! E quanto a helicópteros eles são tantos que nem apagam os “fogos” do Parlamento, que fará a torreira que vai por esse Portugal fora - interveio Alex.
- É mesmo, Portugal está arder de lés a lés e os políticos não há meio de darem a cara – insistiu Heitor – está tudo de vacanças.
- Alguém toma um cafezinho? - Perguntou a dona da casa.
- Boa ideia – anuiu o marido –, já agora, trás aí uns whiskys para acompanhar.
- Eh, malta, o raio desta guerra faz-me lembrar as nossas de putos, lá na Ribeira.
- Conta aí - espicaçou o Rogério.
(…)
A atmosfera amistosa da visita dos conterrâneos provocou o desfiar de recordações que se prolongariam pela noite dentro. Naquela viagem ao passado, não tão longínquo quanto isso, fez-se a ponte com os dias ora vivenciados e cada vez mais cheios de incertezas. A propósito dos bancos da escola, teceram-se alguns considerandos.
As batalhas vitoriosas dos nossos reis faziam da nossa História o povo mais intrépido de que há memória. Eram decoradas com fé quase maometana e em precisão de datas e nomes, sendo assunto obrigatório nos exames da quarta classe, perante um tribunal de professores que nos passava ou enfiava a raposa se nos desviássemos daquelas verdades absolutas como paradigmas a imitar. Ainda que tinham alguma complacência com os problemas da Matemática, agora com a nossa História não brincavam em serviço!
Tais feitos mirabolantes, contados pelos cronistas da época e inflacionados pelos copistas de el-rei, tornaram-se como fixações doentias, narrando, pelas quatro dinastias dentro, batalhas hercúleas tão arrojadas como Aljubarrotas e Atoleiros que ainda hoje permanecem como vestígios e recordações onde um qualquer arqueólogo pode verificar, através da sedimentação dos despojos, a que correspondeu tão avançada táctica militar!
A cartilha narrava apenas dois ou três desastres nacionais, entre os quais, Alfarrobeira – talvez pelos nossos guerreiros andarem de disenteria por tanta alfarroba enfardada! – E afiançava mesmo que o desastre de Alcácer-Quibir fora mais devido ao nevoeiro da ocasião que à valentia da mourisca, que logrou dar cabo da estratégia da quadratura do quadrado, na formação dos lanceiros d’O Desejado, quando as cavalgaduras inimigas lhes terão caído em cima. Valeu a D. Sebastião se ter “evaporado” a tempo e, reza a crónica, que a sua alma veio pairar até Esposende, em estátua petrificada, erguida pelos seus devotos crentes, e quase elevado à honra dos altares, tal a sua semelhança com o seu homónimo, mártir romano, ali na matriz:
- Ai, meu rico S. Sebastiãozinho – rezava a tia Micas, virada para as nuvens de bronze que aureolam o jovem rei – fazei-de-me que o meu rico Tóne volte a salvo do mar de Cristo – enquanto desfiava um rosário de Ave Marias, Padre Nossos e Améns…
Era a cobrança de uma dívida mais que merecida pois El-rei, em 1572, dera-lhe Carta de Provisão, libertando o lugarejo de 370 moradores da tutela de Barcelos.
Tais façanhas viriam a ser recreadas pela canalha da vila, virando lutas e jogos de rua onde o inimigo-amourado era rebaptizado: os do Norte, os do Sul, do Jardim, do Grémio, os da Lagoa, os da Central, cada um destes reclamando para si o estatuto de exército português.
- Eh, malta, lembrais-vos das nossas espadas, feitas de paus, a imitar os lanceiros gregos? – Recordou o Rogério, que era do Norte.
- Isso não era nada. A nossa “artilharia pesada”, armada de calhaus e godos do rio, à primeira investida, decepava logo as vossas couraças! – Gozou de novo o Rogério.
- E a nossa “infantaria ligeira”, de lanças aguçadas de vassoura velha, nas “motas” com rodas de madeira, feitas pelos presos da cadeia, a cinco tostões!?
- Olha aí! – entrou na conversa Alex – eu cheguei a ir armado de Robin Wood, arco e flechas, restos de varetas de guarda-chuvas. Para azar meu, despachei até para o hospital o “Trinca espinhas”, e o desgraçado teve de levar injecção contra o tétano, que eu cismava e afiançava que era contra o teto! …
- E aquele estratega militar, lá do sul, que devia imitar tudo dos filmes dos romanos!? Levava a coisa tão a peito que nas primeiras linhas da refrega os seus guerreiros vinham todos armados de couraças circulares feitas das tampas de bidões … - ria-se o Miguel.
- Aquilo é que eram guerras! – Concordou o Zé. Numa destas fizemos alguns prisioneiros mas a brincadeira ficou-nos cara pois os familiares deram-nos cá uma sova do caraças!
(…)
- Ouvi aqui – interrompeu o Gigas, lendo a Bola do dia – aqueles espanhóis dum canastro deram outra vez “baile” ao Porto, no hóquei. Não há meio de quebrar o enguiço.
- A propósito – adiantou o Heitor – e os nossos sticks de tronco de couves que faziam mais “galos” nas canetas do adversário que golos nas balizas...
- … e estas eram a calhaus e encurtadas, à surrapa, sempre que a bola se aproximava …
- E quando a malta ia jogar futebol contra vós? – Gozou de novo o Miguel.
- Espera lá, um dos nossos craques foi até jogar para o Esposende S.C. , mas logo no primeiro treino acabou por jogar descalço pois a patanha, calibre 48, era tão pequena e calejada que não houve chuteira que lhe servisse!... No treino seguinte, foi preciso sapateiro-ferrador para lhe tirar as medidas!
- O melhor era a porrada pelo golo, sempre avaliado a golpe de vista. Era boxe do melhor. Às vezes, lá aparecia a GNR para amenizar a contenda. Muitos olhos viraram à “Belenenses” quando os seus olheiros até eram adeptos do Benfica e Sporting!...
(…)
- Eh, malta, já é tarde e acho que me vou – bocejava já o Heitor, depois de bem regado do whisky – combinamos aquilo amanhã, O.K?
- Nós também vamos – despediram-se os restantes comparsas – Ciao.
- O. K. Obrigado pela visita e aparecei mais vezes pois recordar é viver.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Um quadro digno de Rafael...

segunda-feira, 21 de julho de 2008
Catraia do Cávado
Alex passeava na cidade tentando descontrair um pouco. De soslaio, ia comparando uns saldos de ocasião nas montras que faziam concorrência quase desleal umas às outras. Lá dentro, os 50% de redução propalados só se estendiam a meia dúzia de monos que nem a Unicef os aceitaria, dados que fossem. Saiu desiludido e retomou o passeio, à procura de alguma pechincha que valesse a pena. Naquela outra multinacional de roupas foi quase que abalroado, pois a multidão, como gafanhotos, engalfinhava-se na disputa do que ainda sobrava. Já ao sair, uma avozinha persignava-se perante a nudez com que alguém despiu uma Eva-manequim!
Ia-se até ao café mais próximo para entabular conversa com algum conhecido de momento quando alguém lhe tocou no ombro, por detrás.
- Desculpa lá, tu não és o Alex?
- Sou sim, ti Man’el, então que o traz por estas minhas bandas?
- Olha, meu menino, ando pr’á ‘qui meio perdido, quase há meia hora, pois não dou com o consultório onde se tiram uns exames e uma prova de força ao coração que o meu médico da Caixa me marcou para esta clínica. Sabes aonde fica o raio desta rua?
Alex esboçou um sorriso e retorquiu:
- Não será uma Prova de esforço, ti Manel?
- Eu sei-te lá dessas coisas. Vais ver que é isso!
- Não se preocupe, eu vou lá com o senhor, como assim os amigos são para as ocasiões. Venha daí.
- Obrigado. Isto d’uma pessoa ir nos oitenta e tais, já num atina lá muito bem. Sabes como é!
- Vai ver que vai correr tudo bem.
Alex recordou aquele lobo-do-mar dos tempos da sua infância. Não havia pincel de Miguel Ângelo ou Rafael que o retratasse tão bem tanto quanto ele o conhecia, pela bravura no mar e pela forma honesta e honrada como sustentou a família numerosa, em tempos de tamanha miséria, e que obrigou à emigração de tantos outros braços, lá da terra, para Brasis, Franças e Alemanhas.
Já na espera do consultório.
- Então tem a “máquina” avariada? – sorriu-lhe Alex.
- A força já não é a que era, filho, mas parece q’inda tenho de correr nuns tapetes, ou lá o que é!? Se fosse no meu tempo, quando era mais novo, eu é que os fazia correr a todos. Já num sou da tua geração. Sempre vivi na nossa terra e o mar foi a minha escola. Quase num sei ler nem escrever mas tam’ém p’ra que é que isso me servia, lá no mar de Cristo?
- Tem certa razão. Mas os tempos também eram outros e a fome obrigava a sair mais cedo da escola …
- Sabes, eu conheci-te de pequenino. Eras cá um traquina, tinhas um ar de franzino mas eras bom menino. Parece que te estou a ver a bater nuns godos e com o resto da canalha toda, atrás de ti, a cantarolar o S. João, nuns testos velhos. Já naquela altura tinhas esse jeito pr’ós cantorios e p´rós órg’os. O meu é que parece cansado!
- Acha que sim? Como adivinhou a cigana, as linhas das minhas mãos tinham umas curvas esquisitas – retorquiu Alex – Cada qual já vem talhado para a vida que há-de levar!?
- Não acredites nisso. Cada um deita-se na cama que faz!
- Talvez tenha razão.
Pois eu nunca mais me esqueci do senhor. Parece que o estou a ver, a chegar ao cais naquela catraia vermelha, todas as manhãs. Quantas vezes me deu uma e outra faneca que eu fazia intenção de frisar bem à minha mãe que tinha sido da parte do ti Manel e que aquela era para fritar, só para mim.
- Sabes que eu tinha bom coração. Não era como alguns pescadores e mestres que eram uns somíticos. Queriam o céu e a terra. Lembravam-se lá dos pobres!
- Oh ti Manel, aquilo dantes devia ser mesmo miséria, não?
- Passaste-a lá tu, menino. Se soubesses o que foi fome. O que valia era o mar, quando ele nos deixava lá entrar!...
- Conte.
- Olha, eu, os falecidos João do Pão, o ti Emílio, o Alfredo da Mouca, o João do Frente, o Rogério, o Li e o filho, o João Careca – qu’inda está vivo – o David, o “Lunetas”, o falecido Zé da Lucas – que Deus o tenha em eterno descanso que era também muito bom home – e tantos outros, esses é que sabem o que foi passar larica!
Quando íamos largar, conforme o tempo deixava, naquelas catraiazinhas de quatro remos, ou numa ou outra maior que levava sete homes mais o mestre, nós é que sabemos o que amargurámos naquele mar de Deus. Bem razão tinha o Zé da Lucas, ao chamar ingnorantes a esses ministros dum raio! Como é que a terra ‘inda há-de ter pescadores c’o a barra naquele estado, vão sustentar-se do ar e vento?
- E depois como é que era? – Indagou Alex mais curioso ainda.
- Olha, as redes ficavam lá mais duas ou três noites e, geralmente à terceira noite, nós íamos alá-las. E tornava-se a largá-las se o mar estivesse calmo. Se estivesse maresia, trazíamo-las p´ra terra. Depois o peixe era rematado lá no cais. Naquele tempo ‘inda as raias ero a dez mil reis!
- Mas como é que a campanha se reunia para ir para o mar?
- Tínhamos o moço dos seus catorze anos, acompanhado do pai ou da mãe, ele é que nos vinha acordar a casa e à restante da campanha. Os moços recebio meio quinhão até chegarem a homes, já pelos seus vinte anos. O mestre, de véspera, avisava que “amanhã vamos às rascas”. Atão, a campanha trazia a vela, a ustaga – um tipo de roldana –, o balde das chamas, – uns paus piquenos que se metiam nuns buracos para fixar os remos ao barco –, o cabo grande ou poitada, – para se dar fundo e parar a catraia no mar –, a cesta do mestre com agulha, – a bússola –, o lampião com vela pr’a se ver de noite. Roupa do corpo – quem a podia ter! – Era de japona, avental de lona que era curada com óleo de bacalhau, o suerte, – boina oleada – a …
Entretanto, a assistente do consultório chamou.
- Sr. Manuel da Silva … de Esposende. Entre para aqui para este gabinetezinho e espere um pouco.
(…)
Passada quase meia hora.
- Então, custou muito? – perguntou Alex.
- Cala-te, menino, eu até fiquei invergunhado quando a moça me quis rapar os pelos do peito e me pôs cá uns fios inléctricos na barriga que eu até punsei mal, pr’a que raio era aquilo!? Depois amandou-me para um tapete que começava a rolar mais depressa que as pernas e quase que me deu o bafo, parece que estava a subir o S. Lourenço e os raios de todas as caretas dos demónios do órgo da matriz a puxarem-me p’ra trás!... fôda-se que caiso desmaei no consurtoro …
- Não se aflija. Isso é igual p’ra todos nesse exame da Prova de esforço. Vai ver que ainda vai poder correr a maratona!
- Sabes do que m’alembrei?
- Diga.
- Quando íamos aos figos ao Sebastião: fugíamos que nem ratos que o hóme era tolo quando nos apontava a caçadeira de chumbos!...
(…)
A caminho da camionete.
- Olha que até foi rápido, só não sei ao que vinha, mas já passou. Agora tenho que pegar a caminheta do Linhares, ali na estação, mas já nem sei p’ra que lado é!?
- É já ali. Eu vou consigo.
- Mas como te estava a contar… aquilo, para vir p’ra terra, num era fácil. Se o vento fosse leste ou sueste não convinha muito porque empurrava a catraia p’rá sepurtura do mar. Em cada costura da vela tinha umas rises que, quando o vento era demais, a vela enrodilhava-se toda e era um “Ai Jasus”. Lá tinha que ser à força dos remos – alguns de nós tínhamos sempre as manápulas cheias de bolhas! – três de cada lado e o mestre, à ré, como hóme de leme.
- Ainda se lembra dessa malta do seu tempo?
- Atão num lembro, e que homes esses! O finado Laguna velho, o ti Américo, o Manel Libra, o Manel da Fanada, o Tóne Tuta, o Trocato, o João do Pinto, o Manel Libano, o Feliz, o Miguel, o Chapuz, o Marcelino Cavalas, o Abilo Calica …
- E lá no cais?
- Aquilo, quando o S. Pedro ajudava, era peixe de toda a espécie. Nas rascas vinham: raias, redobalhos, lagostas, lavagantes, caranguejos, peixe-sapo … Ao anzol, ero os congros e o espinhel. Nas linhas da faneca, de anzol pequeno, era uma farturinha. Depois havia as redes da lagosta, ou rascas de pedra, largadas em cima das pedras, no fundo do mar. Os cofros para o polvo, navalheiras, peixe-rosa, camarão, peixe-espada – que era pescado à mão com anzol e isco de marisco ou sardinha, ao pôr ou ao nascer do sol. As gigas de sardinha eram vendidas por lotes e cada uma deveria ter à volta de umas duzentas sardinhas! Mas a sardinha era só de uma safra. Mais tarde, aparecero os tresmalhos de três redes e as redinhas pr´á faneca, badejo, pintas, robalos … agora é tudo mais fácil com os motores. Mas tamém te digo, como isto está, nem vale a pena ir ao mar, pr’a lá ficar!
- E as catraias não vertiam água nem inundavam com tanto peixe?
- Sabes lá tu! Quando o mar era alto, aquilo até podia dar para o torto e era preciso ter um hóme só pr’o bertedoiro, para escoar a água das cavernas. Era uma iscuridão tremenda, só alumiada pelo lampião de vela, suspenso num remo ou na vara grande, junto ou dependurado no mastro que servia tamém prá nossa localização. Tinha mar de trinta a carenta jardas de profundidade!
As redes eram assinaladas com uma bóia marcada e bandeira próprias da embarcação do mestre mas, às vezes, aquilo também era uma ladroaje do raio, mas a gente acabava sempre por saber quem foro os gatunos … cando num ero as traineiras e um ou outro arrastão que nos davam cabo delas.
Cando a campanha chigava à terra, depois da lota, partia-se o dinheiro, em casa do mestre, sentados no xão, com feijões, pois poucos sabio ler. Se o dinheiro era em notas daquelas grandes – atão as de cem mil réis parecio quase um lençol! - Ia-se ao ti António do sul, ao Loureiro, à Pastilha, à Siloca, p’ra se trocar. Vida de cão, aquela!
(…)
Chegados à estação de camionagem.
- Pronto, ti Manel. Já cá está. A que horas parte a camionete?
- É às seis, mas como é a do desdobramento e com todas aquelas voltinhas por Barcelos e c’o a gente da feira a entrar e sair, só lá pr’as sete e meia é que devo chegar a casa! Vou ver se a Maria me deixou o presigo ou o resto da caldeirada …
- O quê? A carroça anda só a 30 à hora? Mais valia ter alugado a do Man’el Louceiro, ao menos a “gasolina” era à borla e os “fumos do escape” ainda serviam para adubo!
- Bem podes rir. Na era dos foguetões e dos TGVezes aquilo mais valia ir pró museu …
- Um abraço e até à próxima. Não se preocupe que a “máquina” ainda vai durar uns anitos!
- Deus te oiça, filho, Deus te oiça. Obrigadinho pela ajuda.
- Vá com Deus e faça boa viagem.
sábado, 19 de julho de 2008
N.T. 2-0 IN ...

sexta-feira, 18 de julho de 2008
RAÍZES - 2. A passagem do testemunho

A passagem do testemunho
- Mãe, este fim-de-semana não como em casa pois vou com a turma ao Festival de Vilar de Mouros e só volto lá p´ra Segunda, à noite.
- E quem vos leva e traz? – Quis saber a progenitora, um tanto preocupada pois queria-o em casa a horas de não faltar à explicação de Matemática.
- Olha, vamos no jeep do pai de um colega nosso, pois o Luís já tirou a carta. Aquilo toca uns Euros a cada um, de modo que levamos uns sacos-cama e a malta desenrasca-se.
- Filho – atacou o pai – vê lá que não façais desacatos nem andeis na droga, que é o que se vê tanto por aí!...
- Descansa, o meu grupo não alinha nessa. Bastam umas Cocas Colas e uns frios e o resto a gente topa lá.
A Ismael, para além dos estudos, não lhe sobrava muito mais tempo pois metera-se ainda no futebol, no coro da igreja e num conjunto rockeiro e aquele festival era mais uma ocasião para ouvir o último grito pop, techno, rap e reggae, linguagem que dominava de trás para a frente, para não falar dos êxitos dos actuais desde a “avó” Tina Turner, aos David Bowie, Michael Jackson, Madona e outros mais de nomes esquisitos.
- Pai, conheceste os Pink Floyd?
- Claro! Ou pensas que no meu tempo não havia discos? Eles e os Queen continuam a ser ainda do melhor que há. Um dos seus êxitos, em 73, The Dark Side of The Moon, foi um sucesso na altura. Quem esqueceu o seu guitarrista David Gilmour, o baterista Nick Mason, o teclista Richard Wrigt ou o baixista da banda Roger Waters?
- Puxa, ainda os recordas?!... São mesmo beras, os tipos. Então essa música é mesmo bestial. O baterista do meu grupo passou no leitor CD e estamos tentados a tocá-la. Por falar nisso, tens músicas que se vejam nos teus antigos discos de vinil?
Alex levou o filho ao seu cantinho discográfico, feito quase museu e que ocupava parte significativa do móvel da sala de estar, atulhado de CD.s, DVD.s e respectivas aparelhagens de apoio e que já não tinha mais espaço para pôr fosse o que quer que fosse, para além da livrarada, o mais variada possível, que pedia licença para continuar a ocupar o seu espaço exíguo, à espera da largueza suficiente de se mostrar, por reforma de qualquer excedente ou desactualização dos seus comparsas daquele mostruário. Encontrado o azimute dos vinis, cada bufarada de pó fez surpreender o garoto, sobretudo os discos de 78 rotações, provocando-lhe um espanto inusitado.
- Tens aqui os Rolling Stones! – Admirou-se Ismael – Quem foi a Janis Joplin? – retorquiu.
- Olha, imita-lhe os êxitos, não a forma de viver: morreu de overdose!
- Puxa, pai, o Mick Jagger …os Who … Led Zeppelin! Olha aqui, os Bee Gees (…)
Alex reviu-se no tempo.
(…)
Acabava de chegar de mais um fim-de-semana do tirocínio da sua especialidade militar, atirador de infantaria que, por sinal, era o último, antes de embarcar para o Ultramar. Tempos antes, metera-se também num conjunto Pop que, a princípio, funcionou nuns forrinhos, ali pró lados da Central.
À falta de instrumental eléctrico apropriado, ia-se improvisando com umas violas acústicas a que se acoplava um mini- amplificador e simulando a bateria, fazia-se o beat em cima duma mesa ou cadeira. A princípio, eram mais os instrumentistas que os instrumentos, mas passados uns tempos, lá foi possível compor o instrumental e houve até um elemento que, a custas próprias, comprara a bateria, ou melhor, parte da bateria, que se limitava ao bombo, caixa e prato!
Ainda se desenrascou uma amplificação, já em desuso na matriz, mas o feed back era tanto que azocrinava os ouvidos. Para não parecer mal, teve de alugar-se uma para a primeira actuação, no salão paroquial de Gandra. O convidado especial foi frei Hermano da Câmara. Parece que a estreia agradou, mas o final ficou para o fadista que bisara o Eu me entrego todo a Cristo. Um êxito!
Os ensaios foram mudando de poiso até acabarem na cantina da escola, à noite. Não se podia xinfrinar muito pois tinha-se a GNR à porta! O conjunto, ETC de nome, ganhava fama pelas redondezas e, daí em diante, por imperativos de vidas, os seus elementos foram rodando. Tornara-se convidado de vários bailes no concelho e até em distritos vizinhos. Actuara nos velhos Bombeiros, em bailaricos de final de ano e Carnavais e passara também no Núcleo, club de confraternização de muitos dos esposendenses de então.
Tocava-se de tudo, desde o tango à valsa, do twist ao slow, e os cantores e êxitos da altura: Roberto Carlos, Adamo, Sheila, Alain Barrière, John Holliday, Silvie Vartin, Camilo Sesto, Charles Aznavour, entre tantos outros. Mas os mais solicitados eram os românticos brasileiros: Wanderley Cardoso, Wilson Miranda, Lindomar Castilho, etc. Os pombinhos solicitavam O que é que você vai fazer no Domingo à tarde? ou Espere um pouco, um pouquinho mais do Nelson Ned. Para a malta da pesada havia os grupos ingleses e americanos: Beattles, Led Zepellin, Jim Morrison, Doors, Stevie Wonder, Bee Gees, Génesis, Dire Straits, Police, U2, Deeep Purple e o mais em voga.
Pelo meio, ficaram noitadas bem passadas e o calcorreio de terreolas meio desconhecidas, no velho furgão a gasóleo onde se ia, como sardinha enlatada, para dar espaço à aparelhagem e colunas de amplificação. Mais tarde, acabaria por desfazer-se e os instrumentos divididos entre os componentes da altura.
Triste sina a do seu fim que acabaria também, mais tarde, com o infortúnio de três dos seus antigos elementos. Paz às suas almas.
(…)
- Pai?
- Diz, filho, então, topaste o que querias?
- Sim, só não sei como posso ouvir estas relíquias!?
- Ora, rapaz, puxa aí desse gira-discos.
- O quê, esta geringonça? Dá-se à manivela?
- Não, puto, isso era no século passado.
- Porreiro!... Fixe, meu! Vou levar à malta, posso?
- O.K., meu, estás nessa?
- Não gozes!...
quinta-feira, 17 de julho de 2008
-Onde fica o Norte?

quarta-feira, 16 de julho de 2008
RAÍZES - Destinos cruzados
- Olha quem ele é! – Surpreendeu-se Alex, ao reencontrar o velho amigo das brincadeiras da Ribeira e rival do sul, emigrado em França.
- Cada vez estás mais novo, ca…ra…lho! – Gaguejou o comparsa de escola e também camarada de armas, aos tempos da velha Senhora, em Angola.
- Então, por vacance(s)?
- Nunca falho às festas da Sra. da Saúde – adiantou o Tai e um habitué dos andores da procissão – Os meus filhos já nem ligam a isto, ficaram em Nancy. Vim apenas eu, ma femme e este meu netinho, o Michele.
- Outros tempos! – Anuiu Alex – Eu continuo a cumprir a promessa de ir ver a entrada das bandas, ali à praça. Vou apreciar o contramestre do Zezinho que vai reger a banda dos Bombeiros, enquanto aproveita para cumprimentar a comissão de festas e os maiorais da câmara!...
- Ele ainda improvisa aqueles fados e uivos guturais para os banhistas?
- Parece que sim. Também te digo, sem estas figuras típicas de fazer engolir o cigarro atrás da língua, por ilusionismo barato, e dar o seu pé de dança, já nem parece Esposende...
- La belle idée! Acom…panho-te.
No largo da Câmara Municipal, à espera da entrada das bandas de música.
Atento às diabruras de Michele, o avô tenta repreender o puto:
- Michele, tu vas tomber!
- Mais non … grand- père…
- Então, que contas? – Reatava a conversa Alex.
- Olha pá, os filhos já eram, os netos já são e agora estou qua…se na retrete …
- O quê, mas tu não trabalhavas nas obras?
- Mais oui! Que…ro dizer, que estou a tratar da minha reforma.
- Fazes bem. Por cá, já só de bengala, com reumático ou esclerose múltipla comprovada é que a gente irá de vacances … p´rá retrete!...
- Ou la la? C’est tout une merde.
- Que já se cheira ao longe! ...
Entretanto, Michele tentava escalar a estátua do Correia de Oliveira.
- Michele, tu vas tomber! – Preocupava-se o amigo.
Virando-se para Alex:
- Lembras-te dos velhos tempos, lá no Ultramar?
- Se recordo…
(…)
Alex viu-se mobilizado para a guerra e, com ele, mais uns milhares de mancebos por esse país fora e alguns dos seus conterrâneos.
Já em Luanda, reencontrara-o no Grafanil – centro de mobilização geral de Angola.
- Então, pá, também por aqui? - Admirou-se o amigo, de Operações Especiais, enquanto aguardava ida para o Leste.
- Como vês, parece que calha a todos!...
- Olha, a malta só aguarda transporte dos páras e fala-se numa mega operação lá para o Leste …
- Porra, parceiro, isto está assim tão mau?
- Bem, como ainda estás a chegar, será melhor veres por ti. A propósito, para onde vais?
- Sei lá, pá, é lá para o Norte, um aquartelamento algures no mato …
- Vê que não te calhe a rifa de Nambuangongo, aquilo é fogo da pesada!
- A nossa malta é tropa macaca mas o capitão é dos Comandos!...
- A propósito, sabes quem está na prisa?
- Conta.
- O Salsichas. O gajo pirou-se e andou à porrada com um alferes e pô-lo a soro e ligaduras, no hospital militar!
- E agora?
- Agora, vai alinhar por duas comissões de serviço, se entretanto sair da gaiola!
- Boa sorte, lá pró Leste – augurou-lhe Alex - a gente ainda se há-de ver por aí...
- Para ti também. Ciao.
A caminho do novo aquartelamento.
A fila indiana das Berliets que os conduziam para o Uíge nunca mais chegavam. Terra batida, barrenta, pegajenta de mosquitada. E subiam, e desciam …
Picada fora, procurou no bolso do camuflado um cigarro. Entretanto, no transístor do condutor, a Rádio Luanda anunciava manifestações patrióticas no Puto. Um político de ocasião ainda discursava: (…) "A quantos souberam bater-se para que todos possam viver (…) Por isso, nesta manhã dos heróis prestamos sentida homenagem aos varões assinalados que fizeram história no Ultramar português" (…)
A seu lado, o Furriel progressista reavivara poemas de Manuel Alegre.
Ouviu-lhe:
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país (…)
O Cabo alfacinha aproveitou a boleia poética e trauteou:
Mamãe, tu estás tão longe de mim
Mamãe, sinto que estás a chorar (…)
Pelas cinco da matina, ao fim de doze horas daquela tormenta, sonolentos e alquebrados, feitos manteiga e rançosos de poeira por tanto solavanco, alguém berrou da primeira viatura:
- Eh, Companhia, chegamos! Toca a perfilar para a revista.
Como morcegos assustados, ainda meio sonâmbulos, as viaturas militares iam vomitando toda aquela “carne para canhão”, preparada de armas e bagagens para o que desse e viesse.
De nascente, a aurora avermelhada aproximava-se, a passos de gigante, e olhava curiosa aquela tropa maçarica que nem imaginaria nas que se iria meter. À porta de armas do Batalhão, a sentinela ainda dormitava e acordada de supetão, saltou da guarita e berrou:
- Meu Sargento, chegaram os Comandos!
O Sargento de Prevenção, chateado por o acordarem a desoras mas farejando ao longe aquelas fardas engomadas, logo lhes “tirou as medidas”.
- Quais Comandos, minha besta-quadrada, são os maçaricos do Puto que vão p’ra Mucaba. Vai acordar o nosso Oficial de Prevenção.
Meia hora depois, o Comandante da Unidade, acompanhado do Tenente Formosinho, aparecia à porta de armas:
- Atenção, Companhia, apresentar… armas! - Grunhiu o Capitão daquela tropa fandanga.
Um estalejar de mãos nas G3, acompanhando os coices das botas dos soldados no alcatrão da parada, ressoaram quartel dentro, substituindo-se ao toque de alvorada do corneteiro.
Respondendo à saudação de Ordem Unida, o Comandante mandou descansar.
- Descansar … armas!
O Tenente-coronel Amoroso ladrou as boas-vindas aos recém chegados. No seu discurso patriótico, apelou à desinfecção dos turras na zona prometendo até umas feriazinhas surpresa no Puto, a quem lhe trouxesse alguns desses “troféus” como prova. E continuou:
- “ (…) Portugal é um Império e Angola faz parte dele – ressoava ainda o seu vozeirão, assustando a passarada que esvoaçou em momento tão solene – por isso, soldados, sede dignos da farda que usais como os bravos heróis de Pidjiguiti, Mueda e Baixa de Cassange” (…) – e terminando: muita “merda” para a Companhia.
No trajecto, a caminho do aquartelamento, uns bons 40 quilómetros ainda para norte do Uíge, o transístor cantarolava:
Ó povo heróico português,
Num esforço estóico outra vez
(…)
Angola é nossa
Angola é Portugal!...
Desde aquele dia, Alex sentira que a confiança que o animava se começava a esvaziar como um balão.
Seriam os novos senhores da guerra!
(…)
Já no final do desfile das bandas e os cumprimentos da praxe.
- Pois é, pá – rematava o Tai – logo no arraial vai haver disputa entre as duas bandas. Vou ver se também desenfer…rujo as pernas, se os gajos tocarem umas rap …sódias.
Cada vez mais preocupado com o filho, que já se encarrapitara na estátua do poeta.
- Michele, tu vas tomber!…
Após queda do miúdo.
- Filho da puta, já caíste!
Michele aterrara são e salvo nas hortênsias do canteiro, mas nada de grave, a não ser uns pequenos arranhões num braço.
- Mais non, Michele, c’est tous bien mon fils? - Afligiu-se o avô.
- São crianças. Isso passa logo – despediu-se Alex – Se a malta não se vir, felicidades. Boas férias.
- A bientôt!
RAÍZES - Pôr-do-sol em Esposende
Selecção "Olímpica" está aí ...

terça-feira, 15 de julho de 2008
Moda/72 em Curral das Freiras ...

segunda-feira, 14 de julho de 2008
Posto de comando e outros apetrechos...

sábado, 12 de julho de 2008
"Resmas de gajas"... quem dera!

sexta-feira, 11 de julho de 2008
"Frente ... marche!"

quinta-feira, 10 de julho de 2008
Ao "ataque" ...

quarta-feira, 9 de julho de 2008
Os "herdeiros" de Onassis...

terça-feira, 8 de julho de 2008
Lembram-se deste modelo?

segunda-feira, 7 de julho de 2008
Hotel de 6 estrelas em Quivuenga-city

domingo, 6 de julho de 2008
O capim "biológico" (?)

sábado, 5 de julho de 2008
A "árvore das patacas" - o manganório

sexta-feira, 4 de julho de 2008
As "grandes superfícies" a céu aberto ...

quinta-feira, 3 de julho de 2008
"Autopulmans" descapotáveis da ONZIMA
Faziam-se até "prospecções" no terreno de abastecimento e alguns "golpes de mão" mais audaciosos sendo o "espólio" dividido entre as partes.
De apreciar dois dos mais luxuosos veiículos da frota da ONZIMA, em verde azeitona que era então a cor da moda em bólides "todo o terreno", preparados já para locomoção amfíbia.
Os "turistas" da ocasião iam igualmente para um desfile de moda numa cidade mais do interior. Atente-se na particularidade ímpar de vestirem modelos expressamente confeccionados em Lisboa nas OFEP (oficinas de fardamento do Exército Português), e com acessórios únicos - g3, gm, fm, etc. fabricados nas OBP (oficinas do braço de Prata).
Aliste-se!
quarta-feira, 2 de julho de 2008
"Deixem-me descansar ..."
Para além deste exemplar da fauna angolana há ainda a pacaça, o porco-espinho e uma miríade de outros exemplares que se podem cruzar na picada, a qualquer momento, com o turista enquanto este pratica o seu joging matinal... só tem que dar prioridade ao bicho(s).
Da família dos insectívoros, o mais temível é o causador da febre palustre ou paludismo - e eu que o diga! - que obriga a cuidados de "bronzeamento" forçado e rede fina de proteção ou mosquiteiro. Em alternativa, pode sempre usar o leque "jogando ténis" com o dito cujo...
Para esta última praga, os turistas podem contar com antídotos próprios, desde que cumpram as regras do SNS.
Vá, passeie, que o coração agradece.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Amassando o pilão ...
