terça-feira, 22 de julho de 2008

Um quadro digno de Rafael...


Por certo que o grande pintor renascentista não pintaria um quadro com mais realismo e significado.

Os seus personagens nem precisam de qualquer comentário tal a amplitude e missão de cada um destes no contexto da cena - a assistência sanitária na área da enfermagem às populações autóctones.

Desde a vigilâcia do chefe de grupo, ao profissionalismo do enfermeiro Subtil, passando pelo espreguiçar de braços do "Preto", a eficácia do Varela na organização da lista de espera, até à malandrice de olhares do outro soldado que parece "inteirar-se mais de de perto" do sítio das "dores" da doente, tudo isto se enquadra às mil maravilhas na enfermaria-cubata da ocasião.

Cenas como esta até pareceriam desenquadradas num cenário de guerra mas, efectivamente, eram também uma realidade nesse nosso território de além mar.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Catraia do Cávado


RAÍZES


3. A prova de(o) esforço

Alex passeava na cidade tentando descontrair um pouco. De soslaio, ia comparando uns saldos de ocasião nas montras que faziam concorrência quase desleal umas às outras. Lá dentro, os 50% de redução propalados só se estendiam a meia dúzia de monos que nem a Unicef os aceitaria, dados que fossem. Saiu desiludido e retomou o passeio, à procura de alguma pechincha que valesse a pena. Naquela outra multinacional de roupas foi quase que abalroado, pois a multidão, como gafanhotos, engalfinhava-se na disputa do que ainda sobrava. Já ao sair, uma avozinha persignava-se perante a nudez com que alguém despiu uma Eva-manequim!
Ia-se até ao café mais próximo para entabular conversa com algum conhecido de momento quando alguém lhe tocou no ombro, por detrás.
- Desculpa lá, tu não és o Alex?
- Sou sim, ti Man’el, então que o traz por estas minhas bandas?
- Olha, meu menino, ando pr’á ‘qui meio perdido, quase há meia hora, pois não dou com o consultório onde se tiram uns exames e uma prova de força ao coração que o meu médico da Caixa me marcou para esta clínica. Sabes aonde fica o raio desta rua?
Alex esboçou um sorriso e retorquiu:
- Não será uma Prova de esforço, ti Manel?
- Eu sei-te lá dessas coisas. Vais ver que é isso!
- Não se preocupe, eu vou lá com o senhor, como assim os amigos são para as ocasiões. Venha daí.
- Obrigado. Isto d’uma pessoa ir nos oitenta e tais, já num atina lá muito bem. Sabes como é!
- Vai ver que vai correr tudo bem.
Alex recordou aquele lobo-do-mar dos tempos da sua infância. Não havia pincel de Miguel Ângelo ou Rafael que o retratasse tão bem tanto quanto ele o conhecia, pela bravura no mar e pela forma honesta e honrada como sustentou a família numerosa, em tempos de tamanha miséria, e que obrigou à emigração de tantos outros braços, lá da terra, para Brasis, Franças e Alemanhas.
Já na espera do consultório.
- Então tem a “máquina” avariada? – sorriu-lhe Alex.
- A força já não é a que era, filho, mas parece q’inda tenho de correr nuns tapetes, ou lá o que é!? Se fosse no meu tempo, quando era mais novo, eu é que os fazia correr a todos. Já num sou da tua geração. Sempre vivi na nossa terra e o mar foi a minha escola. Quase num sei ler nem escrever mas tam’ém p’ra que é que isso me servia, lá no mar de Cristo?
- Tem certa razão. Mas os tempos também eram outros e a fome obrigava a sair mais cedo da escola …
- Sabes, eu conheci-te de pequenino. Eras cá um traquina, tinhas um ar de franzino mas eras bom menino. Parece que te estou a ver a bater nuns godos e com o resto da canalha toda, atrás de ti, a cantarolar o S. João, nuns testos velhos. Já naquela altura tinhas esse jeito pr’ós cantorios e p´rós órg’os. O meu é que parece cansado!
- Acha que sim? Como adivinhou a cigana, as linhas das minhas mãos tinham umas curvas esquisitas – retorquiu Alex – Cada qual já vem talhado para a vida que há-de levar!?
- Não acredites nisso. Cada um deita-se na cama que faz!
- Talvez tenha razão.
Pois eu nunca mais me esqueci do senhor. Parece que o estou a ver, a chegar ao cais naquela catraia vermelha, todas as manhãs. Quantas vezes me deu uma e outra faneca que eu fazia intenção de frisar bem à minha mãe que tinha sido da parte do ti Manel e que aquela era para fritar, só para mim.
- Sabes que eu tinha bom coração. Não era como alguns pescadores e mestres que eram uns somíticos. Queriam o céu e a terra. Lembravam-se lá dos pobres!
- Oh ti Manel, aquilo dantes devia ser mesmo miséria, não?
- Passaste-a lá tu, menino. Se soubesses o que foi fome. O que valia era o mar, quando ele nos deixava lá entrar!...
- Conte.
- Olha, eu, os falecidos João do Pão, o ti Emílio, o Alfredo da Mouca, o João do Frente, o Rogério, o Li e o filho, o João Careca – qu’inda está vivo – o David, o “Lunetas”, o falecido Zé da Lucas – que Deus o tenha em eterno descanso que era também muito bom home – e tantos outros, esses é que sabem o que foi passar larica!
Quando íamos largar, conforme o tempo deixava, naquelas catraiazinhas de quatro remos, ou numa ou outra maior que levava sete homes mais o mestre, nós é que sabemos o que amargurámos naquele mar de Deus. Bem razão tinha o Zé da Lucas, ao chamar ingnorantes a esses ministros dum raio! Como é que a terra ‘inda há-de ter pescadores c’o a barra naquele estado, vão sustentar-se do ar e vento?
- E depois como é que era? – Indagou Alex mais curioso ainda.
- Olha, as redes ficavam lá mais duas ou três noites e, geralmente à terceira noite, nós íamos alá-las. E tornava-se a largá-las se o mar estivesse calmo. Se estivesse maresia, trazíamo-las p´ra terra. Depois o peixe era rematado lá no cais. Naquele tempo ‘inda as raias ero a dez mil reis!
- Mas como é que a campanha se reunia para ir para o mar?
- Tínhamos o moço dos seus catorze anos, acompanhado do pai ou da mãe, ele é que nos vinha acordar a casa e à restante da campanha. Os moços recebio meio quinhão até chegarem a homes, já pelos seus vinte anos. O mestre, de véspera, avisava que “amanhã vamos às rascas”. Atão, a campanha trazia a vela, a ustaga – um tipo de roldana –, o balde das chamas, – uns paus piquenos que se metiam nuns buracos para fixar os remos ao barco –, o cabo grande ou poitada, – para se dar fundo e parar a catraia no mar –, a cesta do mestre com agulha, – a bússola –, o lampião com vela pr’a se ver de noite. Roupa do corpo – quem a podia ter! – Era de japona, avental de lona que era curada com óleo de bacalhau, o suerte, – boina oleada – a …
Entretanto, a assistente do consultório chamou.
- Sr. Manuel da Silva … de Esposende. Entre para aqui para este gabinetezinho e espere um pouco.
(…)
Passada quase meia hora.
- Então, custou muito? – perguntou Alex.
- Cala-te, menino, eu até fiquei invergunhado quando a moça me quis rapar os pelos do peito e me pôs cá uns fios inléctricos na barriga que eu até punsei mal, pr’a que raio era aquilo!? Depois amandou-me para um tapete que começava a rolar mais depressa que as pernas e quase que me deu o bafo, parece que estava a subir o S. Lourenço e os raios de todas as caretas dos demónios do órgo da matriz a puxarem-me p’ra trás!... fôda-se que caiso desmaei no consurtoro …
- Não se aflija. Isso é igual p’ra todos nesse exame da Prova de esforço. Vai ver que ainda vai poder correr a maratona!
- Sabes do que m’alembrei?
- Diga.
- Quando íamos aos figos ao Sebastião: fugíamos que nem ratos que o hóme era tolo quando nos apontava a caçadeira de chumbos!...
(…)
A caminho da camionete.
- Olha que até foi rápido, só não sei ao que vinha, mas já passou. Agora tenho que pegar a caminheta do Linhares, ali na estação, mas já nem sei p’ra que lado é!?
- É já ali. Eu vou consigo.
- Mas como te estava a contar… aquilo, para vir p’ra terra, num era fácil. Se o vento fosse leste ou sueste não convinha muito porque empurrava a catraia p’rá sepurtura do mar. Em cada costura da vela tinha umas rises que, quando o vento era demais, a vela enrodilhava-se toda e era um “Ai Jasus”. Lá tinha que ser à força dos remos – alguns de nós tínhamos sempre as manápulas cheias de bolhas! – três de cada lado e o mestre, à ré, como hóme de leme.
- Ainda se lembra dessa malta do seu tempo?
- Atão num lembro, e que homes esses! O finado Laguna velho, o ti Américo, o Manel Libra, o Manel da Fanada, o Tóne Tuta, o Trocato, o João do Pinto, o Manel Libano, o Feliz, o Miguel, o Chapuz, o Marcelino Cavalas, o Abilo Calica …
- E lá no cais?
- Aquilo, quando o S. Pedro ajudava, era peixe de toda a espécie. Nas rascas vinham: raias, redobalhos, lagostas, lavagantes, caranguejos, peixe-sapo … Ao anzol, ero os congros e o espinhel. Nas linhas da faneca, de anzol pequeno, era uma farturinha. Depois havia as redes da lagosta, ou rascas de pedra, largadas em cima das pedras, no fundo do mar. Os cofros para o polvo, navalheiras, peixe-rosa, camarão, peixe-espada – que era pescado à mão com anzol e isco de marisco ou sardinha, ao pôr ou ao nascer do sol. As gigas de sardinha eram vendidas por lotes e cada uma deveria ter à volta de umas duzentas sardinhas! Mas a sardinha era só de uma safra. Mais tarde, aparecero os tresmalhos de três redes e as redinhas pr´á faneca, badejo, pintas, robalos … agora é tudo mais fácil com os motores. Mas tamém te digo, como isto está, nem vale a pena ir ao mar, pr’a lá ficar!
- E as catraias não vertiam água nem inundavam com tanto peixe?
- Sabes lá tu! Quando o mar era alto, aquilo até podia dar para o torto e era preciso ter um hóme só pr’o bertedoiro, para escoar a água das cavernas. Era uma iscuridão tremenda, só alumiada pelo lampião de vela, suspenso num remo ou na vara grande, junto ou dependurado no mastro que servia tamém prá nossa localização. Tinha mar de trinta a carenta jardas de profundidade!
As redes eram assinaladas com uma bóia marcada e bandeira próprias da embarcação do mestre mas, às vezes, aquilo também era uma ladroaje do raio, mas a gente acabava sempre por saber quem foro os gatunos … cando num ero as traineiras e um ou outro arrastão que nos davam cabo delas.
Cando a campanha chigava à terra, depois da lota, partia-se o dinheiro, em casa do mestre, sentados no xão, com feijões, pois poucos sabio ler. Se o dinheiro era em notas daquelas grandes – atão as de cem mil réis parecio quase um lençol! - Ia-se ao ti António do sul, ao Loureiro, à Pastilha, à Siloca, p’ra se trocar. Vida de cão, aquela!
(…)
Chegados à estação de camionagem.
- Pronto, ti Manel. Já cá está. A que horas parte a camionete?
- É às seis, mas como é a do desdobramento e com todas aquelas voltinhas por Barcelos e c’o a gente da feira a entrar e sair, só lá pr’as sete e meia é que devo chegar a casa! Vou ver se a Maria me deixou o presigo ou o resto da caldeirada …
- O quê? A carroça anda só a 30 à hora? Mais valia ter alugado a do Man’el Louceiro, ao menos a “gasolina” era à borla e os “fumos do escape” ainda serviam para adubo!
- Bem podes rir. Na era dos foguetões e dos TGVezes aquilo mais valia ir pró museu …
- Um abraço e até à próxima. Não se preocupe que a “máquina” ainda vai durar uns anitos!
- Deus te oiça, filho, Deus te oiça. Obrigadinho pela ajuda.
- Vá com Deus e faça boa viagem.

sábado, 19 de julho de 2008

N.T. 2-0 IN ...


A páginas tantas da nossa guerra e com o "empate técnico" entre as N.T. e o IN ,e já depois do "prolongamento", a "CNN" quis indagar no terreno como iam as coisas e se tencionávamos "ir a penalty's".

Reunido o "alto comando" na mata, e como a coisa iria correr meio mundo, decidiu-se apresentar "resultados" e para o efeito sensacionalista desejado pegou-se no que havia mais à mão (?).

O repórter de imagem captou em "flagrante delito" os nossos dois guias que posaram mui amavelmente embora "ameaçados" por dois soldados NT e lá os fizemos convencer na reportagem de campo que, efectivamente, aquilo era mesmo uma questão de horas, pois o resto do IN estava mesmo para chegar...

Obs. na ocasião, os dois guias terão desviado parte de alguma ração de combate de um soldado mais distraído e a "pena militar" mais leve foi a "colaboração"!...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

RAÍZES - 2. A passagem do testemunho



A passagem do testemunho

- Mãe, este fim-de-semana não como em casa pois vou com a turma ao Festival de Vilar de Mouros e só volto lá p´ra Segunda, à noite.
- E quem vos leva e traz? – Quis saber a progenitora, um tanto preocupada pois queria-o em casa a horas de não faltar à explicação de Matemática.
- Olha, vamos no jeep do pai de um colega nosso, pois o Luís já tirou a carta. Aquilo toca uns Euros a cada um, de modo que levamos uns sacos-cama e a malta desenrasca-se.
- Filho – atacou o pai – vê lá que não façais desacatos nem andeis na droga, que é o que se vê tanto por aí!...
- Descansa, o meu grupo não alinha nessa. Bastam umas Cocas Colas e uns frios e o resto a gente topa lá.
A Ismael, para além dos estudos, não lhe sobrava muito mais tempo pois metera-se ainda no futebol, no coro da igreja e num conjunto rockeiro e aquele festival era mais uma ocasião para ouvir o último grito pop, techno, rap e reggae, linguagem que dominava de trás para a frente, para não falar dos êxitos dos actuais desde a “avó” Tina Turner, aos David Bowie, Michael Jackson, Madona e outros mais de nomes esquisitos.
- Pai, conheceste os Pink Floyd?
- Claro! Ou pensas que no meu tempo não havia discos? Eles e os Queen continuam a ser ainda do melhor que há. Um dos seus êxitos, em 73, The Dark Side of The Moon, foi um sucesso na altura. Quem esqueceu o seu guitarrista David Gilmour, o baterista Nick Mason, o teclista Richard Wrigt ou o baixista da banda Roger Waters?
- Puxa, ainda os recordas?!... São mesmo beras, os tipos. Então essa música é mesmo bestial. O baterista do meu grupo passou no leitor CD e estamos tentados a tocá-la. Por falar nisso, tens músicas que se vejam nos teus antigos discos de vinil?
Alex levou o filho ao seu cantinho discográfico, feito quase museu e que ocupava parte significativa do móvel da sala de estar, atulhado de CD.s, DVD.s e respectivas aparelhagens de apoio e que já não tinha mais espaço para pôr fosse o que quer que fosse, para além da livrarada, o mais variada possível, que pedia licença para continuar a ocupar o seu espaço exíguo, à espera da largueza suficiente de se mostrar, por reforma de qualquer excedente ou desactualização dos seus comparsas daquele mostruário. Encontrado o azimute dos vinis, cada bufarada de pó fez surpreender o garoto, sobretudo os discos de 78 rotações, provocando-lhe um espanto inusitado.
- Tens aqui os Rolling Stones! – Admirou-se Ismael – Quem foi a Janis Joplin? – retorquiu.
- Olha, imita-lhe os êxitos, não a forma de viver: morreu de overdose!
- Puxa, pai, o Mick Jagger …os Who … Led Zeppelin! Olha aqui, os Bee Gees (…)
Alex reviu-se no tempo.
(…)
Acabava de chegar de mais um fim-de-semana do tirocínio da sua especialidade militar, atirador de infantaria que, por sinal, era o último, antes de embarcar para o Ultramar. Tempos antes, metera-se também num conjunto Pop que, a princípio, funcionou nuns forrinhos, ali pró lados da Central.
À falta de instrumental eléctrico apropriado, ia-se improvisando com umas violas acústicas a que se acoplava um mini- amplificador e simulando a bateria, fazia-se o beat em cima duma mesa ou cadeira. A princípio, eram mais os instrumentistas que os instrumentos, mas passados uns tempos, lá foi possível compor o instrumental e houve até um elemento que, a custas próprias, comprara a bateria, ou melhor, parte da bateria, que se limitava ao bombo, caixa e prato!
Ainda se desenrascou uma amplificação, já em desuso na matriz, mas o feed back era tanto que azocrinava os ouvidos. Para não parecer mal, teve de alugar-se uma para a primeira actuação, no salão paroquial de Gandra. O convidado especial foi frei Hermano da Câmara. Parece que a estreia agradou, mas o final ficou para o fadista que bisara o Eu me entrego todo a Cristo. Um êxito!
Os ensaios foram mudando de poiso até acabarem na cantina da escola, à noite. Não se podia xinfrinar muito pois tinha-se a GNR à porta! O conjunto, ETC de nome, ganhava fama pelas redondezas e, daí em diante, por imperativos de vidas, os seus elementos foram rodando. Tornara-se convidado de vários bailes no concelho e até em distritos vizinhos. Actuara nos velhos Bombeiros, em bailaricos de final de ano e Carnavais e passara também no Núcleo, club de confraternização de muitos dos esposendenses de então.
Tocava-se de tudo, desde o tango à valsa, do twist ao slow, e os cantores e êxitos da altura: Roberto Carlos, Adamo, Sheila, Alain Barrière, John Holliday, Silvie Vartin, Camilo Sesto, Charles Aznavour, entre tantos outros. Mas os mais solicitados eram os românticos brasileiros: Wanderley Cardoso, Wilson Miranda, Lindomar Castilho, etc. Os pombinhos solicitavam O que é que você vai fazer no Domingo à tarde? ou Espere um pouco, um pouquinho mais do Nelson Ned. Para a malta da pesada havia os grupos ingleses e americanos: Beattles, Led Zepellin, Jim Morrison, Doors, Stevie Wonder, Bee Gees, Génesis, Dire Straits, Police, U2, Deeep Purple e o mais em voga.
Pelo meio, ficaram noitadas bem passadas e o calcorreio de terreolas meio desconhecidas, no velho furgão a gasóleo onde se ia, como sardinha enlatada, para dar espaço à aparelhagem e colunas de amplificação. Mais tarde, acabaria por desfazer-se e os instrumentos divididos entre os componentes da altura.
Triste sina a do seu fim que acabaria também, mais tarde, com o infortúnio de três dos seus antigos elementos. Paz às suas almas.
(…)
- Pai?
- Diz, filho, então, topaste o que querias?
- Sim, só não sei como posso ouvir estas relíquias!?
- Ora, rapaz, puxa aí desse gira-discos.
- O quê, esta geringonça? Dá-se à manivela?
- Não, puto, isso era no século passado.
- Porreiro!... Fixe, meu! Vou levar à malta, posso?
- O.K., meu, estás nessa?
- Não gozes!...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

-Onde fica o Norte?


Algures nas matas do Uíge e nos percursos das enúmeras operações que fazíamos confrontávamo-nos, algumas vezes, com perdas de orientação pontuais, embora chegássemos sempre ao destino... pelo menos à base do aquartelamento de onde tínhamos saído!

Os mapas da altura não aludiam a determinados pontos referenciais e estratégicos no seu aspecto militar, sendo penoso saber onde é que efectivamente estávamos quanto mais para que azimute nos haveríamos de dirigir, com bússolas obsoletas que desnorteavam mais que supostamente nos orientariam!

Mas nada que nos preocupasse e, para descontrair do cansaço que nos já nos massacrava o corpo e o espírito, na brincadeira, toda a gente opinava como se houvesse mais comandantes que comandados. A decisão final seria tomada em pró da experiência já acumulada pois muitos daqueles trilhos eram já um habitué das nossas passagens anteriores.

Na foto e para a posteridade, o saudoso furriel Cunha "obrigava" a rumar a Noroeste - uma fazenda onde a tropa sempre podia beber uns copitos... - enquanto o cabo rádio-transmissões Rato ria-se a "bandeiras despregadas" pois o seu Racal também parecia já ter "dado o pifo"!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

RAÍZES - Destinos cruzados



- Olha quem ele é! – Surpreendeu-se Alex, ao reencontrar o velho amigo das brincadeiras da Ribeira e rival do sul, emigrado em França.
- Cada vez estás mais novo, ca…ra…lho! – Gaguejou o comparsa de escola e também camarada de armas, aos tempos da velha Senhora, em Angola.
- Então, por vacance(s)?
- Nunca falho às festas da Sra. da Saúde – adiantou o Tai e um habitué dos andores da procissão – Os meus filhos já nem ligam a isto, ficaram em Nancy. Vim apenas eu, ma femme e este meu netinho, o Michele.
- Outros tempos! – Anuiu Alex – Eu continuo a cumprir a promessa de ir ver a entrada das bandas, ali à praça. Vou apreciar o contramestre do Zezinho que vai reger a banda dos Bombeiros, enquanto aproveita para cumprimentar a comissão de festas e os maiorais da câmara!...
- Ele ainda improvisa aqueles fados e uivos guturais para os banhistas?
- Parece que sim. Também te digo, sem estas figuras típicas de fazer engolir o cigarro atrás da língua, por ilusionismo barato, e dar o seu pé de dança, já nem parece Esposende...
- La belle idée! Acom…panho-te.
No largo da Câmara Municipal, à espera da entrada das bandas de música.
Atento às diabruras de Michele, o avô tenta repreender o puto:
- Michele, tu vas tomber!
- Mais non … grand- père…
- Então, que contas? – Reatava a conversa Alex.
- Olha pá, os filhos já eram, os netos já são e agora estou qua…se na retrete
- O quê, mas tu não trabalhavas nas obras?
- Mais oui! Que…ro dizer, que estou a tratar da minha reforma.
- Fazes bem. Por cá, já só de bengala, com reumático ou esclerose múltipla comprovada é que a gente irá de vacances … p´rá retrete!...
- Ou la la? C’est tout une merde.
- Que já se cheira ao longe! ...
Entretanto, Michele tentava escalar a estátua do Correia de Oliveira.
- Michele, tu vas tomber! – Preocupava-se o amigo.
Virando-se para Alex:
- Lembras-te dos velhos tempos, lá no Ultramar?
- Se recordo…
(…)
Alex viu-se mobilizado para a guerra e, com ele, mais uns milhares de mancebos por esse país fora e alguns dos seus conterrâneos.
Já em Luanda, reencontrara-o no Grafanil – centro de mobilização geral de Angola.
- Então, pá, também por aqui? - Admirou-se o amigo, de Operações Especiais, enquanto aguardava ida para o Leste.
- Como vês, parece que calha a todos!...
- Olha, a malta só aguarda transporte dos páras e fala-se numa mega operação lá para o Leste …
- Porra, parceiro, isto está assim tão mau?
- Bem, como ainda estás a chegar, será melhor veres por ti. A propósito, para onde vais?
- Sei lá, pá, é lá para o Norte, um aquartelamento algures no mato …
- Vê que não te calhe a rifa de Nambuangongo, aquilo é fogo da pesada!
- A nossa malta é tropa macaca mas o capitão é dos Comandos!...
- A propósito, sabes quem está na prisa?
- Conta.
- O Salsichas. O gajo pirou-se e andou à porrada com um alferes e pô-lo a soro e ligaduras, no hospital militar!
- E agora?
- Agora, vai alinhar por duas comissões de serviço, se entretanto sair da gaiola!
- Boa sorte, lá pró Leste – augurou-lhe Alex - a gente ainda se há-de ver por aí...
- Para ti também. Ciao.
A caminho do novo aquartelamento.
A fila indiana das Berliets que os conduziam para o Uíge nunca mais chegavam. Terra batida, barrenta, pegajenta de mosquitada. E subiam, e desciam …
Picada fora, procurou no bolso do camuflado um cigarro. Entretanto, no transístor do condutor, a Rádio Luanda anunciava manifestações patrióticas no Puto. Um político de ocasião ainda discursava: (…) "A quantos souberam bater-se para que todos possam viver (…) Por isso, nesta manhã dos heróis prestamos sentida homenagem aos varões assinalados que fizeram história no Ultramar português" (…)
A seu lado, o Furriel progressista reavivara poemas de Manuel Alegre.
Ouviu-lhe:
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
(…)

O Cabo alfacinha aproveitou a boleia poética e trauteou:
Mamãe, tu estás tão longe de mim
Mamãe, sinto que estás a chorar
(…)

Pelas cinco da matina, ao fim de doze horas daquela tormenta, sonolentos e alquebrados, feitos manteiga e rançosos de poeira por tanto solavanco, alguém berrou da primeira viatura:
- Eh, Companhia, chegamos! Toca a perfilar para a revista.
Como morcegos assustados, ainda meio sonâmbulos, as viaturas militares iam vomitando toda aquela “carne para canhão”, preparada de armas e bagagens para o que desse e viesse.
De nascente, a aurora avermelhada aproximava-se, a passos de gigante, e olhava curiosa aquela tropa maçarica que nem imaginaria nas que se iria meter. À porta de armas do Batalhão, a sentinela ainda dormitava e acordada de supetão, saltou da guarita e berrou:
- Meu Sargento, chegaram os Comandos!
O Sargento de Prevenção, chateado por o acordarem a desoras mas farejando ao longe aquelas fardas engomadas, logo lhes “tirou as medidas”.
- Quais Comandos, minha besta-quadrada, são os maçaricos do Puto que vão p’ra Mucaba. Vai acordar o nosso Oficial de Prevenção.
Meia hora depois, o Comandante da Unidade, acompanhado do Tenente Formosinho, aparecia à porta de armas:
- Atenção, Companhia, apresentar… armas! - Grunhiu o Capitão daquela tropa fandanga.
Um estalejar de mãos nas G3, acompanhando os coices das botas dos soldados no alcatrão da parada, ressoaram quartel dentro, substituindo-se ao toque de alvorada do corneteiro.
Respondendo à saudação de Ordem Unida, o Comandante mandou descansar.
- Descansar … armas!
O Tenente-coronel Amoroso ladrou as boas-vindas aos recém chegados. No seu discurso patriótico, apelou à desinfecção dos turras na zona prometendo até umas feriazinhas surpresa no Puto, a quem lhe trouxesse alguns desses “troféus” como prova. E continuou:
- “ (…) Portugal é um Império e Angola faz parte dele – ressoava ainda o seu vozeirão, assustando a passarada que esvoaçou em momento tão solene – por isso, soldados, sede dignos da farda que usais como os bravos heróis de Pidjiguiti, Mueda e Baixa de Cassange” (…) – e terminando: muita “merda” para a Companhia.
No trajecto, a caminho do aquartelamento, uns bons 40 quilómetros ainda para norte do Uíge, o transístor cantarolava:

Ó povo heróico português,
Num esforço estóico outra vez
(…)
Angola é nossa
Angola é Portugal!...


Desde aquele dia, Alex sentira que a confiança que o animava se começava a esvaziar como um balão.
Seriam os novos senhores da guerra!
(…)
Já no final do desfile das bandas e os cumprimentos da praxe.
- Pois é, pá – rematava o Tai – logo no arraial vai haver disputa entre as duas bandas. Vou ver se também desenfer…rujo as pernas, se os gajos tocarem umas rap …sódias.
Cada vez mais preocupado com o filho, que já se encarrapitara na estátua do poeta.
- Michele, tu vas tomber!…
Após queda do miúdo.
- Filho da puta, já caíste!
Michele aterrara são e salvo nas hortênsias do canteiro, mas nada de grave, a não ser uns pequenos arranhões num braço.
- Mais non, Michele, c’est tous bien mon fils? - Afligiu-se o avô.
- São crianças. Isso passa logo – despediu-se Alex – Se a malta não se vir, felicidades. Boas férias.
- A bientôt!





RAÍZES - Pôr-do-sol em Esposende


RAÍZES (?)

É apenas mais um ensaio literário de partilha com os meus leitores com episódios muito centralizados na realidade dos anos 50.

Depois da experiência literária do Também eu estive lá..., esta é mais uma incursão na área do romance que o autor tem vindo a explorar, dando aso à sua imaginação e tendo como centro a sua envolvência no litoral minhoto e na labuta do mar.

Os anos do pós guerra, de Salazar, Américo Tomás e Caetano, foram difíceis para um Portugal que se viu remetido à emigração por falta do sustento familiar e onde a fome grassava em cada aldeia deste Portugal.

Cada episódio pode configurar, para os meus leitores na casa dos 60, vivências bem paralelas conforme as suas circunstâncias e locais próprios.

A escola, a doutrina, as bricadeiras de miúdos, o trabalho duro da terra e da faina do mar, a fome, o analfabetismo e tantos outros temas e vivências foram comuns à maioria dos nossos concidadãos.

Espero que apreciem e queiram opinar.

P.S. Partilharemos, alternadamente, com os episódios da Ônzima3411.

Lino Rei